1
PODIA TER SAIDO CARO AQUELE MEU PONTAPÉ NO …
Eu era um simples aspirante a oficial. Não tinha culpa de levar a sério a minha posição. Já tinha estado no RI 19 no Funchal nos meus primeiros meses de activo depois do curso de oficiais milicianos em Mafra.
Destacado para Évora para preparação da companhia que me iria levar para o Ultramar, eu levava as minhas responsabilidades muito a sério.
Se era para ser oficial de dia ao Batalhão era mesmo oficial de dia.
Pela porta de armas passava toda a tropa do quartel. Da graúda à miudinha. Ai do sentinela que não cumprisse o seu papel.
Volta e meia era chamado a passar revista ao grupo de soldados que se juntava à porta de armas, mortinha por sair.
- Dá licença, meu aspirante? Está tudo pronto para a revista. – dizia-me o sargento de dia bem perfilado à minha frente.
- Já lá vou - respondia.
Eram p’raí uma dúzia. Em sentido. Em linha rigorosa.
Passava diante de cada. Mirava-lhe a barba. O cabelo. A farda. As botas. Tudo tinha de estar a brilhar.
Um dia, um deles, provocador, apresentava-se desalinhado. Boné à rufia. Barba por fazer. As botas baças. A farda suja.
- Ouve lá. Por acaso viste-te ao espelho, lá na caserna?
- Não meu aspirante. Na caserna não há espelhos. – respondeu prontamente, pensando que tudo estava resolvido.
-Ouve lá. É preciso um espelho para veres o estado dessas botas? Há quanto tempo não vêm graxa?
2
- Ó meu alferes, o meu pré não dá para graxa, muito menos para dois pares de botas…ainda esta noite, voltamos de madrugada de correr montes e vales…não consegui melhor. – adiantou ele todo triunfante.
Nesse momento, ocorreu-me perguntar:
- Está aqui algum camarada de pelotão deste soldado?
- Estou eu- respondeu uma voz.
Abeirei-me dele. Vi-lhe as botas e a farda. Impecável.
Chamei o outro à frente.
- Conheces?
- Conheço. É do meu pelotão.
- Olha para as botas dele.
Ele olhou. Eu olhei-o. A cara manteve-se-lhe inexpressiva. Nenhum sinal de concordância ou desacordo.
Podia cortar-lhe a dispensa de saída. Não.
Preferi agarrar-lhe os ombros. Voltei-o de costas e desfechei-lhe um pontapé no …
-Agora, vais para a caserna, arranjas a barba, limpas as botas e apareces cá quando tiveres tudo em ordem.
Tudo voltou ao normal.
Quando voltei para o meu gabinete, senti-me um pouco perturbado com a atitude que tomara. Não era muito frequente. Mas acontecia, de vez em quando, com outros oficiais. Fazia parte da cultura militar.
Não deixei de dormir. O soldado tinha sido arrogante demais. Bem sabia que não estava em ordem. E ousou.
Nunca mais foi preciso repetir. Quando eu estava de oficial de dia, tudo corria às maravilhas.
3
O tempo passou. A recruta e a especialidade foram tiradas e chegou a hora de partir para o Ultramar. O meu batalhão foi desmembrado. Duas Companhias destacadas para a Guiné e uma para Moçambique. Coube-me a Guiné.
Passaram-se uns largos meses. Já estava na Guiné.
A minha companhia tomava parte numa grande operação no sul. Na região de Catió. Para além dos comandos e de outras forças, estavam no terreno a companhia de Bedanda e a de Cufar.
No final do dia, depois de diversos contactos com o inimigo, a minha companhia encontrou-se com a de Bedanda, iam ambas pernoitar, no meio da bolanha, num ponto bem longe das matas onde tínhamos andado em actividade.
Ambas tinham saído do RI 16 de Évora. Éramos mais ou menos conhecidos.
Entretanto há um soldado da companhia de Bedanda que se me dirige.
- Dá licença, meu alferes?
- Sim. Que queres?
Olhamo-nos. A cara dele não me era estranha. Ele fitou-me nos olhos com os seus. Vidrados. Calado.
- Que pretendes? Adiantei-me. O intervalo já era demais.
- O meu alferes não me conhece?
- Sim. Não me és estranho.
- Pois não. - Acrescentou ele.
- Conhecemo-nos de Évora. Adiantou.
- Sim. – respondi, já meio atrapalhado, cá por dentro.
- Pois é. Lembra-se do pontapé que me deu. Na porta d’armas?
- Já me lembro. – respondi. Terei ficado pálido. Senti-me perturbado com a surpresa. Mas acrescentei:
- E depois?
4
- Depois, sabe, meu alferes. Às vezes há uma bala perdida da nossa própria tropa…não se sabe de quem…até pode ser sem querer…
Fiquei estarrecido. Não dei parte de fraco.
- É verdade. Eu sei disso. Não me digas que também és desses fracos? …Achas que é caso para tanto?...
- É tudo uma questão dum repente , na hora certa. – respondeu lívido, a tremer.
- Ó diabo. Acalma-te. O que lá vai lá vai. É passado. Agora, sei bem que me excedi. Desculpa lá…Quando chegarmos ao quartel, vamos beber uma cerveja os dois e vamos lá esquecer. Se calhar, tu no meu lugar terias feito o mesmo. Não achas? Ou puxavas da pistola Walter e davas-me um tiro?
- Um pontapé era capaz de dar. Um tiro nunca. – respondeu prontamente.
Fiquei mais aliviado. Foi o que eu quis ouvir.
- Então porque me estás a ameaçar, aqui? Já te pedi desculpa.
Fez-se um silêncio. Pareceu uma eternidade.
Depois, veio a resposta.
- Pronto, meu alferes. Isto foi só para apagar a revolta que senti em mim e me tem acompanhado desde aquela altura. Já me passou muita coisa má pela cabeça. Precisava de me confrontar com o meu alferes. A ver como reagia. Reagiu bem. Pediu desculpa. Por mim, fica tudo esquecido. Pode crer. Agora, já sou capaz de dar a minha vida para o socorrer…como a outro camarada qualquer…
- Posso retirar-me?
- Dá cá um aperto de mão. Quando nos encontrarmos, em Catió ou em Bissau, seja lá onde for, temos de brindar com uma bem fresquinha. Okay?
- Okay!
Escusado será dizer:
-Naquela longa noite eu não preguei olho, de guarda a mim mesmo.
Foi uma boa lição…para o resto da vida…Até hoje.
Aveiro, 3 de Agosto de 2009
Joaquim Luís Mendes Gomes
Monday, December 28, 2009
Friday, August 28, 2009
O CAIM DE SARAMAGO
Não te cai bem,
Ó pobre mortal,
Atacar Abel
E defender Caim,
Para passares por deus.
Farias o mesmo,
Se em vez de Caim,
Deus tomasse Abel...
Tu és assim:
Gastaste a vida,
Fazendo de forte
A condenar o rico,
Porque não és rei
E te sentes fraco.
Com tanta ambição,
mais uma vez
Destilas fel,
Como se vertesses mel,
Ao falar de Deus.
E, apesar do Nobel,
Te vês Caim,
Fingindo d’ Abel...
Aradas, 28 de Agosto de 2009-08-28 18h e 24m
Joaquim Luís Mendes Gomes
Não te cai bem,
Ó pobre mortal,
Atacar Abel
E defender Caim,
Para passares por deus.
Farias o mesmo,
Se em vez de Caim,
Deus tomasse Abel...
Tu és assim:
Gastaste a vida,
Fazendo de forte
A condenar o rico,
Porque não és rei
E te sentes fraco.
Com tanta ambição,
mais uma vez
Destilas fel,
Como se vertesses mel,
Ao falar de Deus.
E, apesar do Nobel,
Te vês Caim,
Fingindo d’ Abel...
Aradas, 28 de Agosto de 2009-08-28 18h e 24m
Joaquim Luís Mendes Gomes
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