AS LISTAS NEGRAS
Há tantas listas
neste mundo!...
Listas brancas,
listas negras,
sem matiz.
Uma só
de infeliz
lembrança,
já faltava
a este País...
Há a Lista da Lotaria
Sempre branca.
Como a morte.
Em cada folha,
até ao fundo,
prós avessos
da boa sorte,
- a maioria...
As mais das vezes,
ó ironia,
vai p'ra quem
sem sofrer,
sem merecer,
já é rei
de meio mundo...
Vem depois
a lista negra
do desemprego:
De quem,
um dia,
nasceu pobre,
é honesto
e sem padrinho...
de quem pecou,
uma vez só,
desamparado
e sem perdão...
de quem
muito vale,
e com muita força,
à sua custa,
faz sombra a quem,
sem graça,
tudo pode...
A lista dos hospitais
Como é longa,
dolorosa,
só de velhos,
desamparados,
sem fortuna
ou pé de meia,
na cidade cega,
esquecida vila,
remota aldeia...
Ó triste sina!
A lista da Justiça
São tantos,
aos milhares,
os amigos da violência,
da maldade
e do alheio.
São demais...
Não chegam os juizes,
tanta desordem,
tanto desleixo,
pelos nossos tribunais...
Tanta sede de justiça,
já morreram as testemunhas,
tanta noite sem dormir,
já esqueceram suas queixas...
Infelizes!...
A Lista dos Dependentes
Muito tenros,
inocentes,
crescidos
ao relento,
são famintos
do pão da vida
que lhe juraram ao nascer...
Na asfixia
do amor fraterno,
que lhe negam
os egoistas,
os poderosos,
vagueiam,
à deriva,
são farrapos,
pelas encostas,
pelas valetas,
dos casais ventosos,
de toda a parte...
A Lista dos Alienados
São aos milhões...
Que tristeza!...
Todas as camadas sociais.
Com cultura,
sem cultura...
Que medonha
caldeirada!
Há presidentes
há doutores,
serralheiros,
lavradores,
fiscalistas,
banqueiros,
padrecos
professores,
catequistas...
nas bancadas
de tineira,
tardes loucas
de domingo,
no futebol
que engorda
de vil metal,
as bilheteiras...
e as carteiras
dos figurões,
amantizados
com a indústria...
porca...
da política!
Mas neste cortejo,
deletério,
de tanta lista,
e tantas mais,
só faltava esta
ao meu País:
Ali bem perto,
de Belém,
dos Heróis das Descobertas
Na parede nua
dum fortim,
esquecido
que ali havia,
escreveram,
linha a linha,
uma lista longa,
envergonhada,
nomes
mortos,
bem ordenados,
cronológicos...
Que tristeza!
Que miséria!...
Parece a lista
dum cemitério!...
Saibam todos,
ó filhos...
de Portugal!
País de glórias,
muitas,
à beira-mar!
Oiçam todos,
ó maiorais!...
Nós
os nomes vivos,
que, só por sorte,
não estão...
na dita lista,
todos nós,
de cabeça erguida,
com revolta,
gritamos alto,
com coragem:
Vomitamos,
rejeitamos,
firmes,
a vergonha
daquela homenagem!?...
Saturday, March 24, 2007
Sunday, March 11, 2007
Pedras preciosas...
Esta noite mesmo, tive um sonho. Ainda era miúdo. Dei comigo em calções, sentado na valeta da estrada, ao pé de minha casa. Era verão. Não havia perigo. Os carros que lá passavam, era um, de hora a hora.
Pela tardinha, gostava de brincar ali, sózinho, na valeta da estrada, frente à casa onde nasci.
As valetas eram regos toscos, um de cada lado da estrada. Esta ainda em terra batida com cascalho à mistura.
Depois da chuva do inverno, aqueles regos formavam no verão, uma espécie de ribeira seca. Com folhas mortas, de plátanos e videiras, muito arrumadas, em tapete ou em renda, ao longo das duas margens.
De vez em quando, o leito delas espraiava-se em açudes secos de areia. Muito lavada e fina. Havia sulcos e ravinas muito bem desenhadas em miniaturas caprichosas.
Não havia conchas...eu gostava que houvesse conchas...como as da Póvoa de Varzim. Seria sinal de que havia mar ali ao pé. Como tanto queria.
Esta noite mesmo, tive um sonho. Ainda era miúdo. Dei comigo em calções, sentado na valeta da estrada, ao pé de minha casa. Era verão. Não havia perigo. Os carros que lá passavam, era um, de hora a hora.
Pela tardinha, gostava de brincar ali, sózinho, na valeta da estrada, frente à casa onde nasci.
As valetas eram regos toscos, um de cada lado da estrada. Esta ainda em terra batida com cascalho à mistura.
Depois da chuva do inverno, aqueles regos formavam no verão, uma espécie de ribeira seca. Com folhas mortas, de plátanos e videiras, muito arrumadas, em tapete ou em renda, ao longo das duas margens.
De vez em quando, o leito delas espraiava-se em açudes secos de areia. Muito lavada e fina. Havia sulcos e ravinas muito bem desenhadas em miniaturas caprichosas.
Não havia conchas...eu gostava que houvesse conchas...como as da Póvoa de Varzim. Seria sinal de que havia mar ali ao pé. Como tanto queria.
Por isso, ainda hoje, não posso viver muito longe dele. Muito menos, passar muitos dias sem o ver.
Minha terra ficava longe do mar. Entre montes e serras altas. Com neve branca no inverno. Com muitas árvores. Muitos campos povoados de muitas aves buliçosas.
Não eram sempre as mesmas. Ora umas ora outras, conforme a sua época. Só nós éramos sempre os mesmos.
Minha terra ficava longe do mar. Entre montes e serras altas. Com neve branca no inverno. Com muitas árvores. Muitos campos povoados de muitas aves buliçosas.
Não eram sempre as mesmas. Ora umas ora outras, conforme a sua época. Só nós éramos sempre os mesmos.
E havia penedos de granito. Em bolas gigantescas. Espalhadas às claras ou ocultas pelas encostas. De nos deixar de boca aberta.
Volta e meia ouvia-se estrondos ao longe. Tão fortes como a trovoada ou a metralhada duma guerra. De meter medo.
Meu pai diza:
- São os pedreiros nos montes dos Perdidos.
As pedreiras ficam a léguas dali. Meu tio era um deles. Ia para lá todos os dias. Com um jumento carregadinho de picos e martelos.
Eram frequentes os carros de bois, com aqueles eixos grossos, em toros de madeira, a chiarem como cães danados. Tanta e tamanha era a carga sobre o carro. E meu pai dizia:
- Estas pedras vêm lá das pedreiras dos Perdidos.
Eu ouvia-o. Depois, cá com os meus botões, punha-me a decifrar o resto.
Pensava nas casas que eu via erguidas, em fiadas de blocos de pedra habilidosamente encastelados; nos esteios altos, delgados que seguravam as ramadas e bardos de vinho verde, a toda a volta dos campos e quintais; nas colunatas lisinhas e trabalhadas que seguravam os portões das muitas casas apalaçadas.
Enfim, tudo era feito, rijo, para durar. Sempre fora assim.
Por isso é que havia tanta areia fina pelas valetas. Não era dura nem sequer seca a camada que fazia. Podia-se escavá-la com os dedos das mãos, até à terra negra e dura.
Debaixo daquela capa fina, logo apareciam pedacitos, em tamanho variado, matizados e macios. Arredondados, como ovos de passarinho. Eram lindas. Ora baças, reluzentes, em camadinhas tão perfeitas, de várias cores. Como o arco-íris, se lhes batia o sol.
Ainda bem que as pessoas grandes que iam pela estrada, tisnadas do sol, consumidas da vida, passavam indiferentes a tanta riqueza... Só minha. Levava-a avaramente para casa...para o meu saquinho de pedras preciosas...
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