Friday, October 26, 2007




DO VINTE E CINCO DE ABRIL...

É bom lembrar:


Foram vinte e cinco portas
que se fecharam,
para outras tantas
se abrirem,
naquele dia.

Tantos foram
os soltos,
supostos mortos,
como tantos,
os sepultados,
supostos vivos.

Não teve vítimas,
de sangue rubro,
a correr
p'las ruas...

Mas que dilúvio,
de injustiças,
de cruezas,
inesperadas,
se abateu
sobre as famílias,
genuínas,
portuguesas!...

Pelas portas largas
da política,
da liberdade,
docilmente franqueadas,
quanta erva,
daninha e parasita,
trepou as escadas,
falsas,
do sucesso
e do poder...

Quanta lama
Entupiu as escolas
e corredores
dos serviços
e ministérios!...

Foi tudo fora,
de arremesso,
só porque vinha do passado.

Foram treze anos
de luta e de glória,
dum povo todo,
pela defesa
do que era seu,
que se cobriram
de ignomínias
e esquecimento.

Foram tretas
de vanguardas,
trotzquistas
e traidores,
a escarnecer
dumo povo
e dum país,
com muita história
e muita honra,
que, por muito pouco,
esteve à beira do abismo.

Só a força e garra,
do mesmo gente,
lutadora,
lhe valeu vingar
o que de bom trouxe
aquele dia!...


Friday, October 12, 2007




SUPREMO ULTRAJE...



Antes fosse de cartão
aquele dinossáurico fóssil,
megalítico de betão
que o Luciano Guerra,
numa insónia, insana,
concebeu.


Nenhum Grão-Mestre
ou Norton de Matos,
um mafarrico,
faria o que ele fez.
Enterrar em Fátima
tanto milhão!...
Tanta falta faz
ao Zé-Povinho
português!

Ó ultraje!
Ó desgraça!

Cerquem-no tão alto,
com uma muralha de cascalho,
que ninguém o veja
lá do céu!...

Enterrem,
Bem fundo e para sempre,
aquele hediondo,
infamante feijoeiro
esquelético,
a fazer de crucifixo
exterior!...

Retirem,
a toda a pressa,
por vergonha
e por respeito,
a veneranda estátua
dum Santo Padre
que de tão magno,
a mereceu!...

Faça-se daquilo,
tudo...tudo...
de maluco
que quiserem:

uma necrópole,
um mega-híper,
uma catatumba
ou cemitério!...

E se faça,
nem que seja
com a força
dos infernos,
um milagre,
em desagravo:

Uma tromba d'água
tão grande
que o desfaça!

Tuesday, August 28, 2007






A Tartaruga


Sempre tive pena da tartaruga.
Tão paciente!...
Tão conformada!...
Tão persistente!...

Pata a pata,
indiferente ao chão,
faça sol,
chuva ou não,
muito lenta,
chega sempre
a horas onde quer!

Mas, coitada!

Carregada...
que nem uma burra!

Tuesday, August 14, 2007

RATICE NA PRAIA!


Cheguei à praia.
Tem pose fatal.
Óculos de breu.
Alourados cabelos,
à mesa do bar.

Crava-me o olhar,
de arrancar os cabelos!...
Que é que ela quer?

Estendi a toalha,
expuz-me ao sol,
em fato de banho.

Oculto a carteira e
relógio
nos sapatos vazios.
E o raio da rata,
com ligeiro sorriso,
não deixa de olhar...

Entretanto,
uma mocita inocente(?)
- donde é que saíu? -
surge na hora
e ensaia conversa
com minha mulher
mergulhada no mar.

Eis que a rata, sabida,
como quem nada quer,
de olhos matreiros,
fixos em mim,
avança para o mar
e molha os pés...
À cata de quê?...

Um raio de luz
rasgou-me a cegueira!...
Já sei!
O que ela quer apanhar,
o raio da rata,
ratona de praia,
é o relógio e carteira!...

Monday, July 09, 2007

Tudo doido...
ou foi só conto do vigário?





Se num dia
do fim de Abril,
raiou enfim
a Liberdade...
e o Povo inteiro
abraçou na rua
a bandeira
do perdão
e da igualdade!...

Se o mundo,
em todo o lado,
ficou parado,
e confiante
nas promessas de Justiça
de saúde e Educação,
para cada um,
segundo
a sua necessidade!...


Se nas terras de ninguém,
atrás das serras,
onde não há mar
e o sol aperta,
o frio racha
e a terra é dura
de cavar...

Ninguém lá quer ficar,
porque não há escola,
nem professor,
não há médico,
não chega a estrada
nem sequer comboio à hora...

Se ao cabo de tanto ano,
as rédeas do poder,
por artes malabares,
foram ter a tenras mãos,
dentro e fora da oposição,
em proveito só
do seu grupinho,
padroeiro,
ou capelão...

Se reina só o despudor
e a cor da camisola,
o que conta é o partido
quem está fora
é inimigo
a abater,
dê lá p'ra onde der...

Se se abateu
a nossa frota,
com tanto peixe
e mar à volta...

se se deixa secar a terra
que dá e sobra,

se se consente
que os nossos rios
fiquem presos
na fronteira,

com tanta sede
na indústria...
e tanta fome
para matar...

Se se entopem as Têvês,
com mixórdias
e "biguebradas"
e outras coisas
fedorentas...

Se se oferecem,
aos milhões,
às malucas catedrais
quer da bola
e iguais alienações...

Está tudo doido...
Ou foi o conto do vigário?

Um dia,
o balão da Europa
vai rebentar...
e que vai ser deste País,
da sua história milenar,
suas crenças e valores.?

Onde pára a glória
de Abril?...

Sunday, June 24, 2007


Que Porca pariu estes políticos
de aviário!...




Vêm direitinhos
da porcalhota,
sacola às costas,
do banco da escola
ou da estufa de aviário,
numa manhã de nevoeiro,
a cavalo dum jumento,
à procura da bolota
até fartar,


ou do poleiro
do erário,

que escorre,
às golfadas,
pelas escadas singulares,
dos meandros dos partidos,
às escadas parlamentares,
às poltronas de são Bento,
às pastagens de Bruxelas,

p'ra glória sua
e muito melhor sustento...


Como a chuva
cai do céu,
aí vão
pela fresta do telhado,
ou pela porta do cavalo,

p'rós gabinetes de damasco,
nos oásis da banca,
da finança,
de rica herança,
que vem da Europa,
sem suor,
à custa da desgraça
do zé povinho...
que não é parvo,
mas grande anjinho...
sempre o mesmo
- o bombo da festa-
paga as favas...
e cai p'ró lado.

Tuesday, May 15, 2007



MIOPIA...PROTAGONISMO a mais...
nas TVs



Vestir o casaco do avesso,
Calçar o esquerdo, no direito,
Um botão da camisa em falso,
Virar o chapéu da frente
para o traseiro?...

Uma vez só, de vez em quando?
Não faz mal.
- É um percalço.

Tudo isso,
às vezes,
ao mesmo tempo?...

- Aí já não.
É disparate.

Sempre assim,
só por querer?...

- É palhaçada!



Se no mundo das TVs
o tempo sobra,
é demais,
p'rás balelas e futebóis!...

Se nas coisas sérias,
da vida e do saber,
tudo fica por dizer,
quando apenas começou...

Se os nossos locutores,
convencidos,
que são doutores,

na leitura dos jornais,
soltam comentários xouxos,
tão gratuitos
e tão banais...

e, nas entrevistas,
tão abruptos e arrogantes,
calam os entrevistados
- que pacientes!...
para lhes impor uma opinião,
a sua,
que ninguém pede
nem agradece...

Que miserável miopia
e que triste palhaçada!...

Sem que ninguém
lhes faça nada!...

Monday, May 14, 2007

Epitáfio


Debaixo destes
sete pés de terra,
está a terra
que eu fui,
convencido
de que nunca
chegaria a hora
de voltar à terra...

Pudesse eu voltar
cá fora
e ser agora
a terra viva
que eu não fui...

Tuesday, May 08, 2007




O Deserto Economista...

Já bastavam as miragens
das areias do deserto!

E as mentiras traiçoeiras
da lua cheia...
Mesmo apagada ,
sem ser estrela,
alumia...

E as teorias mil
sobre as origens
da vida e das ideias:

Foi na água,
foi no fogo,
ou negrume das cavernas,

desde lá de trás,
dos remotos gregos,
aos hodiernos sábios
das clonagens...

E os cálculos arrojados,
de cabeça,
de egípcios e caldeus,
frente às estrelas,
p'rás pirâmides
que 'inda lá estão...

E as contas absurdas,
astronómicas,
dessas máquinas,
cegas,
surdas,
mudas...
que p'raí vão...

Nem são carne,
não são peixe,
nem vegetam!...

Mas,
mais fatais,
que todos os sábios,
adivinhos
do passado,
do futuro,
ninguém previu,
ninguém sabe donde
e para quê...

Num golpe de magia,
num assalto de voragem,
pela calada das orgias...

apareceu e para durar,
- será praga,
será castigo
ou expiação?...

essa horda malabar
dos economistas:

Os exclusivos detentores
das artes,
omniscientes,
malabaristas,
dos cordelinhos,
esotéricos,
dos balões
das percentagens
e das sondagens.

Esticam...esticam...
Como querem
e não rebentam ?!...

E, não é que,
em percentagem,
são mesmo chatos!...

Mesmo poucos,
convencidos,
fazem frente,
não desarmam!?...

Ra'is os partam!'...

Quem mo diz?

Qual é hoje
a percentagem
de miragem,
nas areias
deste deserto economista?..
.

Friday, May 04, 2007

Os padres casados?...Porque não?...


Como dizia o outro: " eu sou do tempo"...em que se era quase excomungado se ousasse discutir este tema em público e às claras!...

O celibato era indiscutível...era impensável pensar doutra maneira...seria uma catástrofe imaginar que os padres pudessem casar e serem sacerdotes ao mesmo tempo...era o mesmo que tentar juntar o azeite e o vinagre.

Os padres...devem ser castos...logo, não podem nem devem casar, porque o casamento, lá no fundo, era qualquer coisa de impuro, por natureza!...o casamento "distraía" o padre do serviço da igreja...roubava-lhe disponibilidade...complicava-lhe a vida...e por aí fora.

Porquê? Porque se construiu a ideia de que ser sacerdote era uma missão transcendente à normalidade das coisas reais...era assim como um bombeiro sempre em acção, pronto a a apagar fogos...ou um soldado sempre em guerra...para quem a família só estorva...

Ou seja: onde deveria imperar a normalidade da natureza, tal como foi criada, erigiu-se uma "ideia-força" como uma realidade incontornável e...implantou-se "de estaca"...na terra.
Claro que essa planta artificial pegou e ao cabo de séculos...impôs-se como não podendo deixar de ser assim. Ser padre...é igual... a ser celibatário.

Ora, sabemos que as coisas não tiveram o mesmo desenvolvimento na Igreja do Oriente.

Aí, manteve-se aquilo que brota da natureza das coisas. É como casado que o sacerdote exerce o seu múnus...em toda a sua extensão. E mais. Enriquecido pela riqueza do casamento. Com uma família à sua volta e na sua dependência.

O resultado é de perfeita harmonia e conjugação. O padre não vive numa estratoesfera...não perde o sentido das realidades...não se estonteia com as alturas como infelizmente vemos como foi, no passado, e muito ainda, no presente.

O apregoado "trunfo" do celibato não tem razão de ser, como condição sine qua non...
Com o tempo, lentamente, tudo entraria na normalidade se aquele deixasse de ser imposto...

Acho que seria uma "revolução" pacífica e muito frutuosa...para a Igreja. E é por aí que a Igreja deve seguir...

Friday, April 20, 2007

Tenho um Portugal
como não quero!...


Somos só
dez milhões de sócios,
neste rectângulo,
de terra,
pequenino.

A herança
que nos tocou!...

Temos horta
e pomar.
Temos mar.

Temos serra,
campo
e um jardim...

Temos água,
pura
e fresca,
para beber
e p´ra regar.

Vinhedos ricos,
coloridos,
bem guardados,
em segredo...

A profundidade imensa
dum céu azul,
onde reina o sol
e as noites
de luar...

A Natureza-Mãe
já nos provou
o seu favor!...

Temos graça,
temos honra.
Temos raça,
abundante,
a correr nas veias...

Fulgor de luzes,
muita arte,
muito engenho...

Dá p'ra nós...
até dá p'ra emprestar
a quem tudo pode,
mas não tem!...


Com tudo isto,
vejo triste
um Portugal
que não é
o que eu desejo!...

O que eu vejo
é pouca gente
alegre
e muita,
muito triste!...

Thursday, April 19, 2007

Os perús


Um bando inesgotável de perús
abateu em Portugal!

Como abutres negros,
tomaram conta dos poderes:

na praça pública,
na terra benta,
e,
até, no
palácio ducal!...

Donde veio
a estranha praga?...

Só cantam.
Noite e dia.
E muito mal.

Só pensam
no grão de bico
pró seu pandeiro...

Toda a gente
está farta deles.

Ninguém os espanta
do seu poleiro...

Têm cores diferentes.
mas exibem a mesma penca.
Grasnam do mesmo jeito.
Sempre em seu proveito.

Grande praga
de abutres,
com penas
de perús!?

Monday, April 02, 2007

CAPOEIRA



Kó-Kó-ró-kó!
ki-ki-ri-ki!

Tudo à mistura,
Tudo à porfia,
sem verdade,
sem rigor,
sem vergonha,

nas cadeiras
desta jovem
democracia!...


Nos aparelhos escuros
dos partidos,
há claques cegas
ao redor
dum presidente
qualquer
e sem fulgor!...

Na assembleia magna
há solistas,
roucos,
de coros,
loucos,
coloridos,
sem chama,
sem ouvido,
e sem sabor...

Nos vistosos
campanários
dos ministérios,

tocam sinos
e sinetas,
ao despique,
de bronze falso
e sem badalo...

Lá nas alturas,
presidenciais,
já há muito,
não brilha o sol,
só há nuvens
pardacentas.

Não cantam galos,
pela madrugada,
não há auroras
matinais,
que ponham ordem
nesta política
de capoeira...

Tanto prégador,
sem eira
nem beira!...

Que democracia
apátrida
e sem valor,
só de bombos
e tambores!...

Kó-Kó-ró-kó!
ki-ki-ri-ki!

A rebate...
Ao desafio!...

Ó Senhores,
a valer,
da madrugada!

Oa da política,
com valores!
Desta Pátria,
Nobre!
Antiga!...

É vossa a hora
de cantar!
Faz-se tarde!
Está na hora!
...

Saturday, March 24, 2007

AS LISTAS NEGRAS


Há tantas listas
neste mundo!...

Listas brancas,
listas negras,
sem matiz.

Uma só
de infeliz
lembrança,
já faltava
a este País...

Há a Lista da Lotaria

Sempre branca.
Como a morte.
Em cada folha,
até ao fundo,
prós avessos
da boa sorte,
- a maioria...

As mais das vezes,
ó ironia,
vai p'ra quem
sem sofrer,
sem merecer,
já é rei
de meio mundo...

Vem depois
a lista negra
do desemprego:


De quem,
um dia,
nasceu pobre,
é honesto
e sem padrinho...
de quem pecou,
uma vez só,
desamparado
e sem perdão...

de quem
muito vale,
e com muita força,
à sua custa,
faz sombra a quem,
sem graça,
tudo pode...

A lista dos hospitais

Como é longa,
dolorosa,
só de velhos,
desamparados,
sem fortuna
ou pé de meia,
na cidade cega,
esquecida vila,
remota aldeia...
Ó triste sina!

A lista da Justiça

São tantos,
aos milhares,
os amigos da violência,
da maldade
e do alheio.
São demais...

Não chegam os juizes,
tanta desordem,
tanto desleixo,
pelos nossos tribunais...

Tanta sede de justiça,
já morreram as testemunhas,
tanta noite sem dormir,
já esqueceram suas queixas...
Infelizes!...

A Lista dos Dependentes

Muito tenros,
inocentes,
crescidos
ao relento,
são famintos
do pão da vida
que lhe juraram ao nascer...

Na asfixia
do amor fraterno,
que lhe negam
os egoistas,
os poderosos,
vagueiam,
à deriva,
são farrapos,
pelas encostas,
pelas valetas,
dos casais ventosos,
de toda a parte...

A Lista dos Alienados

São aos milhões...
Que tristeza!...
Todas as camadas sociais.
Com cultura,
sem cultura...
Que medonha
caldeirada!

Há presidentes
há doutores,
serralheiros,
lavradores,
fiscalistas,
banqueiros,
padrecos
professores,
catequistas...

nas bancadas
de tineira,
tardes loucas
de domingo,

no futebol
que engorda
de vil metal,
as bilheteiras...

e as carteiras
dos figurões,
amantizados
com a indústria...
porca...
da política!

Mas neste cortejo,
deletério,
de tanta lista,
e tantas mais,
só faltava esta
ao meu País:

Ali bem perto,
de Belém,
dos Heróis das Descobertas

Na parede nua
dum fortim,
esquecido
que ali havia,
escreveram,
linha a linha,
uma lista longa,
envergonhada,
nomes
mortos,
bem ordenados,
cronológicos...

Que tristeza!
Que miséria!...

Parece a lista
dum cemitério!...

Saibam todos,
ó filhos...
de Portugal!
País de glórias,
muitas,
à beira-mar!

Oiçam todos,
ó maiorais!...

Nós
os nomes vivos,
que, só por sorte,
não estão...
na dita lista,
todos nós,
de cabeça erguida,

com revolta,
gritamos alto,
com coragem:

Vomitamos,
rejeitamos,
firmes,
a vergonha
daquela homenagem!?...

Sunday, March 11, 2007

Pedras preciosas...


Esta noite mesmo, tive um sonho. Ainda era miúdo. Dei comigo em calções, sentado na valeta da estrada, ao pé de minha casa. Era verão. Não havia perigo. Os carros que lá passavam, era um, de hora a hora.

Pela tardinha, gostava de brincar ali, sózinho, na valeta da estrada, frente à casa onde nasci.
As valetas eram regos toscos, um de cada lado da estrada. Esta ainda em terra batida com cascalho à mistura.

Depois da chuva do inverno, aqueles regos formavam no verão, uma espécie de ribeira seca. Com folhas mortas, de plátanos e videiras, muito arrumadas, em tapete ou em renda, ao longo das duas margens.

De vez em quando, o leito delas espraiava-se em açudes secos de areia. Muito lavada e fina. Havia sulcos e ravinas muito bem desenhadas em miniaturas caprichosas.

Não havia conchas...eu gostava que houvesse conchas...como as da Póvoa de Varzim. Seria sinal de que havia mar ali ao pé. Como tanto queria.
Por isso, ainda hoje, não posso viver muito longe dele. Muito menos, passar muitos dias sem o ver.

Minha terra ficava longe do mar. Entre montes e serras altas. Com neve branca no inverno. Com muitas árvores. Muitos campos povoados de muitas aves buliçosas.
Não eram sempre as mesmas. Ora umas ora outras, conforme a sua época. Só nós éramos sempre os mesmos.

E havia penedos de granito. Em bolas gigantescas. Espalhadas às claras ou ocultas pelas encostas. De nos deixar de boca aberta.
Volta e meia ouvia-se estrondos ao longe. Tão fortes como a trovoada ou a metralhada duma guerra. De meter medo.

Meu pai diza:
- São os pedreiros nos montes dos Perdidos.

As pedreiras ficam a léguas dali. Meu tio era um deles. Ia para lá todos os dias. Com um jumento carregadinho de picos e martelos.

Eram frequentes os carros de bois, com aqueles eixos grossos, em toros de madeira, a chiarem como cães danados. Tanta e tamanha era a carga sobre o carro. E meu pai dizia:
- Estas pedras vêm lá das pedreiras dos Perdidos.

Eu ouvia-o. Depois, cá com os meus botões, punha-me a decifrar o resto.

Pensava nas casas que eu via erguidas, em fiadas de blocos de pedra habilidosamente encastelados; nos esteios altos, delgados que seguravam as ramadas e bardos de vinho verde, a toda a volta dos campos e quintais; nas colunatas lisinhas e trabalhadas que seguravam os portões das muitas casas apalaçadas.
Enfim, tudo era feito, rijo, para durar. Sempre fora assim.
Por isso é que havia tanta areia fina pelas valetas. Não era dura nem sequer seca a camada que fazia. Podia-se escavá-la com os dedos das mãos, até à terra negra e dura.

Debaixo daquela capa fina, logo apareciam pedacitos, em tamanho variado, matizados e macios. Arredondados, como ovos de passarinho. Eram lindas. Ora baças, reluzentes, em camadinhas tão perfeitas, de várias cores. Como o arco-íris, se lhes batia o sol.

Ainda bem que as pessoas grandes que iam pela estrada, tisnadas do sol, consumidas da vida, passavam indiferentes a tanta riqueza... Só minha. Levava-a avaramente para casa...para o meu saquinho de pedras preciosas...

Monday, February 12, 2007

Negras clarividências...


Referendo é, por definição, uma consulta directa ao povo sobre uma questão muito especial. Que não se compadece com a estrita e instituida representação política. A daqueles que formam o Parlamento ou o Governo. Só se faz quando se juntam estas duas circunstâncias. Todos, absolutamente todos, e cada um, são convidados a dizer de sua justiça, livremente.
Ora, todos sabemos que o povo português, por razões sociais de sobrevivência, se dividiu em duas grandes famílias. A dos residentes e a dos que se viram forçados a passar a fronteira à procura do pão que lhe é regateado na sua terra.

Então, porque é que numa questão tão importante como esta, a da despenalização/liberalização do aborto, os milhões de portugueses espalhados pelo mundo, não foram ouvidos?...Não lhes foi dada a oportunidade de se fazerem ouvir?...

Eu, em Berlim, quiz votar e não me deixaram...
Quais teriam sido os resultados deste referendo?...A quem interessou?...ao "sim" ou ao "não"...

Expliquem-me...

Friday, February 02, 2007



Donde vem, suprema,
esta geração sem gema,
cheia de clara,
de casca cinzenta,
Quem nos governa!?...

Tuesday, January 30, 2007

Não sou supersticioso.
Não quero tornar-me supersticioso.
Mas começo a ter medo dos dias onze de cada mês...

Temo que o meu País, no próximo dia onze de Fevereiro,
caia no barbarismo de dizer "sim"...

Sunday, January 28, 2007

Hoje, não tenho nada de que me apeteça falar. Olha, vou falar de virilhas. Ó diabo! Fugiu-me a boca...Queria dizer ervilhas. Porque me terá saído trocada a referência? Talvez , porque, há uns tempos para cá, essas bandas ocultas resolveram chatear-me. Péga, não péga, cravam-se-me umas alfinetadas no topo da perna direita e, andar, é o está-quieto...só devagar e com cuidadinho.
Esta coisa, de andar a sessenta e cinco... a geometria range que range...começa a abanar tudo, a carroça desengonça e, será da chapa, ou da carcaça, não há ferro nem engate que não bata.
Transplantes? Hhumm!...prefiro tudo o que vem da origem.... Aperta aqui, aperta acolá, pára agora, arranco já, com muito jeito, há-de dar até à toca...
Eu bem via o meu avô José . Nasceu no século dezanove...Deixou de subir à torre e tocar o sino...Daí em diante, foi pegar na bengala e, coitado, manca, salamanca, levava meia hora a vir da casa dele até à nossa. Eram outros tempos, também.

Mas voltando às ervilhas. Estava-me mesmo a apetecer um arrozinho delas...a acompanhar uma coelhada no forno.

Tuesday, January 09, 2007

Sábado de manhã...
Manhã de Sábado. Desço à rua. Vou ao café da esquina, em Santo António da Caparica. Abro o jornal do costume, enquanto o empregado - já me conhece, desde solteiro,- começa a tirar-me a bica, cheia, e traz um queque.
Se estivesse só o velhote - sempre de trombas - não sei se são alguma coisa um ao outro, eu bem podia esperar. Até ao almoço.
Estamos no fim de Setembro. Já corre um ar fresco. Quase frio. E eu estou de manga curta.
As mesas cá fora estão quase cheias. Vizinhos como eu. Desfiam, folha a folha, as últimas do jornal. Atrás de mim, dois indivíduos falam, falam, melhor, só um é que fala, monocórdico sobre banalidades do dia a dia ou do que já passou. Um herói. Pela conversa , só a sua cabeça funciona em condições.
Numa das mesas do varandim, estão duas maduronas, pintalgadas. O perfume já aqui me deu. Falam, falam, ambas ao mesmo tempo. Não sei como é possível entenderem-se. Falam de saldos e das botas altas que já compraram...
Ah! O velhote já chegou. Ele mesmo vem limpar-lhes a mesa
- Que desejam tomar as Senhoras?...(Velho da Horta!...)