Monday, June 02, 2008



Estado de Alma


Minha cabeça está carregada de nuvens.

Rangem meus ossos e cartilagens.

Há gelatina nas frestas das janelas.

Escorrem bagos de tinta verde
entre soluços e abraços.


Há estilhaços de garrafas
e insectos de asas mortas,
como estacas.

Brotam secas as raízes pelos charcos.
Gelaram mortos
os ninhos de gaivotas.

Secaram as rosas e os jasmins.

As estradas desventradas
cobriram-se do pó seco
que ensanguenta as gargantas
e escama os olhos.

Escorre sangue pelas valas.

Cavalos de aço
em cortejo
cospem fogo
e espargem fumo
como cardos
em solfejo...

Bem no centro do nada,
correm rios de cor,
com histórias de ódio
e de amor.
...

Sunday, February 03, 2008


Psiquiatra ou Salpicão...


Há quem precise só de cão.
Há quem precise só de gata.
Há quem prefira banho de imersão.
Há quem não dispense o escalda-pés,
nem de inverno nem no verão.

Há quem viva só a pão.
Há quem morra por pastéis de nata.
Há quem prefira a neve
À doce praia de verão.

Há quem prefira a bruxa
Às mil rezinhas dum sacristão.


Mas quem não gosta
dum bom naco de chouriço,
bem regado de tintão,
em vez dum padre-nosso,
nem que seja ao serão?...

É verdade!...Amanhã,
há psiquiatra e salpicão,
para o cão
ou para a gata?...

Sunday, January 27, 2008

O VOTO EM BRANCO...



Punhal afiado
escondido no bolso,
apontado ao peito,
cravado na hora,
Dum povo
que vota ultrajado.


Barco de remos,
de velas rasgadas,
vazio de esperança,
na hora do voto,
encalha no porto,
carregado de raiva...

Monday, January 21, 2008

NO CAFÉ EÇA DE QUEIRÓS



É um salão luminoso,
regado de cor.
Tem o Eça escritor,
bem evidente,
a ler o jornal,
num painel ao fundo,
com ar superior.

Tem fartura de bolos,
muito cheiro a café.
Guloseimas de bolos
regados de ovos,
bolos opíparos,
que bem trabalhados,
variados enfeites,
de todas as cores.

Até,às escuras,
pãezinhos de deus
que o diabo,
lá dentro amasssou...

Que amigos da onça
e do colestrol!

Tem empregadas alegres,
de rosto gaiteiro,
sempre agitadas,
num corre e vai-vém,
baeta a brilhar,
sempre a sorrir,
levam às mesas,
passam de mil,
bicas, galões,
com espuma a esbordar.

Na mesa ao meu pé,
está uma "garina"....
muito palra a mulher!

Uma gata assanhada.
Seus lábios de cio,
parecem arder.
Revirada dos olhos,
olhos de gata,
remelgada de fel,
não olham pró chão.
São como vespas,
a olhar em redor,
À caça de mel?...

Ou da tigela da sopa
que há-de vir a ferver...

Aveiro, 14 de Janeiro de 2008