Wednesday, April 30, 2014

Primeiro de Maio...

Primeiro de Maio

Ao clarear do dia...
Sento-me na minha varanda.
Confortavelmente.
Como um camarote de luxo.
Duma sala real,
Dum palácio encantado,
E fico à espera
Que comece o espectáculo.

Que cenário de sonho,
O Dono da sala,
Montou para nós!...

Um cortinado colossal
De verde pendente.
Cerca as paredes.
Se ouvem pardais.
Chilreando anúncios.
De paz e de festa.

Frementes, em bandos,
Passam imponentes,
Meus amigos, os corvos.

Sopra no ar,
Uma brisa suave.
Me agita os cabelos,
Me adoça os ouvidos.

E faz bailar graciosos,
Os raminhos mais tenros,
Das copas das árvores.

Olhando ao alto,
Vejo um céu cada vez mais claro.
E não faltará muito,
O cortejo dos raios de sol,
Começa a descer,
Na alameda mais vasta,
E elegante,
Traço dum Mestre,
Com os riscos mais certos,
Que meus olhos já viram.

Minha alma vibrante
Incandesce exaltada...
Que espectáculo,
Tão belo e tão lindo
De luz e de cor
Neste primeiro de Maio!...

Ouvindo Hélène Grimaud tocando Bach

Berlim, 1 de Maio de 2014
6h54m
Joaquim Luís Mendes Gomes



flagelo eléctrico...

Flagelo eléctrico...

Vou aniquilar este flagelo eléctrico.
Cerrou minhas portas e janelas.
Me toldou de escuridão.

Sem mais nem menos,
Fiquei sem net e água quente.
Só duas velas
E a luz das estrelas.
Nauta perdido.
Num mar sem fim.
Assim fiquei,
Chegado a Berlim.
E eu sem culpa...
Contas mal feitas
De quem arrendou a casa.
E veio o corte cego,
Apunhalado, nas minhas costas.

A soma de dois anos inteiros,
Acumulada...umas boas centenas.
Tudo saldei.

E o electricista veio!...
Repôs os fios.
Apaguei as velas.
E, de novo,
Fiquei a ver...
Com a net à mão.

Berlim, 30 de Abril de 2014
15h44m
Joaquim Luís Mendes Gomes


Monday, April 28, 2014

fome de paz...

Fome de paz...


Vim para Berlim.
Com fome de paz
 De amor,
Em mim
E à volta de mim...
¨
Aturdido...atónito.
Com tanta atoarda política.
Tão pouca vergonha.
O escárnio das gentes
Pelas frentes que mandam.

Perderam o respeito por tudo.
Honrar quem viveu
Que vive da luta e trabalho.

Portas abertas a tudo que queiram
Rasgam as leis
Que eles mesmo fizeram.

Até a mais forte
Que serve de base.
De nada lhes serve...
A rasgam e pisam aos pés.
Em nome de quê?...
Uns egoístas sem cor.
Se vendem para fora,
Uns figurões.

Que cabeças vazias,
Sem nada lá dentro.
Chegaram ao topo
E tomaram as rédeas!...

Precisam duns coices bem dados
Para irem ao chão...
E ganharmos a Paz
A que temos direito.

Ouvindo Hélène Grimaud

Bar dos “motocas”, arredores de Berlim
28 de Abril de 2014
19h50m
Joaquim Luís Mendes Gomes


Friday, April 25, 2014

amanhecer em Roses...

Amanhecer em Roses...

Que leveza de ar,
Azul nacado na manta de prata do mar.
Na auréola castanha de fumo,
Circundando ao longe,
Saída da terra, alta e negra,
Muralha de paz.

No cimo mais alto da abóboda do céu,
Azulíneo,
Banhado de  sol
Que há-de nascer
Para nós.

Na frescura duma brisa suave
Que apenas me chega ao nariz.

No matiz da praia molhada,
Que faz de entrada-tapete
A quem vem para ficar.

Reina o silêncio dormente
Nas casas que enchem todos os poros
Da encosta, à volta.

Chegaram agora mesmo,
Os primeiros sorrisos de sol
Batendo nas vidraças ao longe.

Baloiçam tão leves os mastros dos botes,
Que dormiram presos ao porto.

Minha alma exalta de encanto incansável,
Chorando da partida que vem...
E não espera.

Roses, 26 de Abril de 2014
7h10m

Joaquim Luís Mendes Gomes

Roses ao cair da tarde...

Roses...ao cair da tarde...

Perante este lago azul,
Aberto ao mar,
De águas dormentes,
Apetece cantar.
Áreas de sonho.
Sonhar cantando.
Olhar o céu
E ficar a orar.

Tanta beleza.
Neste quadro de cores.
De azul cinzento
E toucado de luz.
Dum sol a pôr.

Que grande festa.
Tanta folia...
Aqui se viveu,
O dia a arder.

Está tudo a postos.
Olhos no céu.
A lua virá
Com seu manto branco,
Cobrindo a noite.
Tecida de estrelas.
Um altar exposto
Derramando luar.

Enquanto a terra,
Cansada da festa,
A sono solto,
Se deita a dormir.
E nós também.

Roses, 25 de Abril de 2014
20h48m

Joaquim Luís Mendes Gomes

vertentes deste mar azul...

Vertentes deste mar azul...

Não tem vertentes
Este mar azul.
Só ondinhas breves.
Que se riem
Às gargalhadas.
Convidando a mais um mergulho.

O sol ardendo,
Lhes dá o brilho
E a cor do sal.

A areia doce
É tão macia.
Se faz de leito
Para mais uma soneca.
Sob uma tenda
Numa toalha às cores.

Os corpos tisnam.
Ficam sombrios.
E o peito enche,
Se queda tão leve,
Como um balão de ar
Que só quer voar.

Só tenho pena
De não poder ficar.

Roses, 25 de Abril de 2014
15h6m

Joaquim Luís Mendes Gomes 

voltar a Roses...

Regressar...a Roses

É bom voltar.
Dormir, aqui,
Nem que seja só uma noite.
Onde a vida sorriu.
Cheia de sol
E de cor.
E dos mergulhos sem fim,
No azul sereno de mar.

Ver o arco amarelo de luzes,
Ao longe,
Nas praias
Do outro lado de lá.

Ver a lua de prata a subir,
Derramando luz e luar.

Traz-me novas de Além
E me mata as saudades de Roses.

Sentir a brisa a correr,
Entre o mar e a terra.
Leva salpicos de sal
E traz perfumes da serra.

Ver o tempo passando
Tão suave e tão leve,
Deixando tanta saudade,
Quase parece eterno.


Roses, 25 de Abril de 2014
9h28m
Joaquim Luís Mendes Gomes

Wednesday, April 23, 2014

prosseguindo...

Vou prosseguindo...

Livre, sem mala, na mão,
Só meu cajado,
Vou prosseguindo.

Minha bagagem
Vai cá dentro.
Oculta.
Livre do sol,
Do tempo
E do vento,
Inclementes.

Foi alcançada,
À mão desarmada,
Com muito suor.

Tanta lição
A vida me deu.

Fui-as escolhendo.
Fui-as guardando.

Me serviram de escada.
Umas vezes subindo.
Outras descendo.

Nem sempre é recto
O caminho.

Nem sempre
É a hora.

O tempo
Tem tempo.
E é mestre.

Sem pressas,
Atento
Com vontade
E pensando,
Com força,
com ânimo,

Mais tarde
Ou mais cedo,

Se abre o caminho.

O sonho se alcança.

É preciso esperar.

De nada serve sofrer
Com mais que a dor
De querer ser
E sonhar com o sonho
Que a vida nos dá.

Ouvindo música clássica variada

Madrid, 24 de Abril de 2014
7h30m
Joaquim Luís Mendes Gomes

meu pensamento...

Meu pensamento...

É como um monge,
Perdido e solitário,
Nos claustros dum convento.

Uma ave sedenta,
De asas abertas,
Batendo ao vento
Que quer voar.

Um rouxinol atento,
De cordas vibrando,
À espera que se lhe abram
As portas da sua prisão.

Um balão às cores,
Todo impante,
Só aguarda a hora
De poder subir.

Um paquete de sonhos,
De mastros ao alto,
Preso ao porto,
Está mesmo morto
Por seguir viagem.

Uma canoa de proa erguida,
Sem leme à ré,
A esbordar de arroz.
Só pede a Deus
Que lhe dê boa maré.


Um moinho, alegre,
Tão triste alado,
No alto do monte.
Esperando pelo vento...
Só quer moer.

Madrid, 23 de Abril de 2014
20h54m
Joaquim Luís Mendes Gomes



Tuesday, April 22, 2014

constelação de flores...

Constelação de cores...

Vou pegar nas mais lindas flores do meu jardim.
Com suas cores, vou pintar,
No céu estrelado, uma constelação.

Será a maior.
Será a mais bela
A luzir...
Todo o mundo irá vê-la.
E vai ficar feliz.

Com os pés no chão.
Virando as costas para o mal
E a olhar para o céu.

É de lá que o sol virá,
Ao raiar da aurora.
Inundando o mundo,
De luz e cor.
Derramando esperança.
Almas sofridas.
Chegou a hora
De pensar em Deus.

A única chave de oiro,
Que nos liberta
E põe a navegar à solta,
Com segurança,
Num mar feliz,
Quaisquer que sejam os ventos
E apesar da tempestade.

Ouvindo Adágio de Albinoni
Madrid, 23 de Abril de Abril de 2014
7h12m

Joaquim Luís Mendes Gomes

Monday, April 21, 2014

sete momentos- 21/4/14

“Sete momentos...”

Através das portas envidraçadas,
Sob toldos largos de veraneio,
Vejo um céu cinzento e albo,
Em constante transformação.

Um painel de linhas
Descreve monstros.
Desenhas mares,
Mapas dum mundo,
Com muitos gigantes,
Clarões a arder...

Imensa fornalha,
De poeira e pó,
Em labaredas,
Sempre a botar,
Poisa na terra,
Nasce no mar.

Pela estrada aos soluços,
Corre um cortejo,
Cheio de carros.
Andam na faina constante,
Do traz e leva.

Só alguns aqui páram.
Tomam café
Lambem os dedos,
Mesmo ao balcão.
E seguem viagem.

Enquanto acostado,
A este teclado,
Manejo as letras,
Pinto quadros,
Grafias secretas,
Que brotam dos olhos,
Sem tinta ou tinteiro,
Enchem paletas,
Traçam nervuras
Folhas de couve
Ou palmas da mão.

Mafra, 21 de Abril de 2014
11h38m

Joaquim Luís Mendes Gomes

cruzeiro do sul...

Vozes de Além...


Ao cair da tarde
Fui para a praia,
Mesmo à beirinha do mar.
Pus-me a ouvir
As  vozes de além.
Vozes de sonho
Vinham no vento,
Poisadas nas ondas,
Correndo para mim,
Me embalando,
Outra vez,
Criança, menino,
Como minha Mãe me fazia,
Nas manhãzinhas,
Nos Agostos de infância.

Sinto arrepios.
Não do gelo da espuma,
Nas mãos do banheiro,
Pescador poveiro,
De camisa de estopa,
Bordada em xadrez.

Sinto-lhe o sal.
Curtindo-me a pele,
Provo-lhe o iodo.
Me deixo enlear
Nos laços e abraços das algas,
Sou menino outra vez.

Meus cabelos, compridos,
Outrora, curtinhos
 Escorrem, em mim,
Perfumados de espuma,
Da cabeça aos pés.

Me envolvo em toalha de linho,
Como se fosse bandeira,
Me sinto um herói,
Cansado e feliz,
Deitado na areia,
Ouvindo sereias,
Ao longe,
Cantando e
Olhando para o céu...

Ouvindo “Avé Maria” por Mirúsia e Kimy Kota ...com André Rieu

Mafra, 21 de Abril de 2014
8h15m

Joaquim Luís Mendes Gomes




Sunday, April 20, 2014

o nada...

O nada...

Tudo desaparece.
Deixa de ser real
Na escuridão total.

Até os holofotes possantes
Que tudo iluminam.

Se o sol vai,
Vem a noite com seu manto
E num instante,
Aparece o negro.
Fica só o reflexo
Na nossa mente.

A memória esquece.
Derramando esquecimento
Como uma glândula.
Feroz e inclemente.

Vão-se todas as résteas de luz.
E o deserto avança.
Frio. Seco.
Sepulcro profundo.
Devorador.
Chegam os vermes.
Tudo mastigam
Reduzindo a nada.
Vai-se a fome.
E germina a ausência
Potente e eterna.
Nada germina.
É o fim.
Inclemente e cego.
Nem há fumo
Que se eleve no ar.
Até o cheiro seca.
Desfeito em cal.
Não há bem
Nem mal.
É o nada com toda a força.

Só um milagre
O fará reviver.

Mafra, 20 de Abril de 2014
21h10m

Joaquim Luís Mendes Gomes

dia de Páscoa...

Nos "sete momentos"
Dia de Páscoa


Cerraram-se as cortinas brancas das janelas.
As portas largas de alumínio
Ainda estão fechadas.

Dormem na manta do silencio,
Sob os telhados
As gentes cansadas do labor.

Pelas estradas ainda ermas,
Só a chuva corre
Pelas bermas e valetas.

Pelas encostas cobertas
De giestas amarelas,
Correm fios de correntes,
Lá dos cumes.
Rumo ao rio que corre grosso,
Lá mais ao fundo.

É deles que lhes vem
A força toda
E aquela vontade de correr
Com pressa.
De chegar depressa até ao mar.


Oiço Bethoven.
Na sua sonata moonligth,
Ao piano.

Com toques tão brandos.
Quase tristes.
Me dá vontade de chorar...


Mafra, 20 de Abril de 2014
11h23m

joaquim Luís Mendes Gomes

Páscoa....



Páscoa...


Subam da Terra ao céu
Hinos de Paz,
Hinos de Glória.
Hinos de Amor.
Jesus. Morto na cruz.
Mistério maior.
Ressuscitou!...
Aleluia!

E com Ele,
Se abriu para nós,
Mortais,
Da Terra inteira,
De todos os tempos,
A glória final.
Da vida eterna
Junto de Deus.
Criador.
Nosso Deus.
Nosso Senhor
E nosso Pai.

Não enxergamos bem
A riqueza que é!...
Só a Fé
E sua graça
Nos revela
O que será!...
Só assim, a vida faz sentido.
Sem a mão de Deus
No nosso caminho.

Tudo fica escuro.
Tudo é negro.
Aterrador
Aleluia!

Ouvindo André Rieu

...Mafra, 20 de Abril de 2014
6h16m
Joaquim Luís Mendes Gomes

Saturday, April 19, 2014

centelhas de luz...

Centelhas de luz..

Um mar de centelhas de luz,
Reluz nesta terra negra.
E crepita
frente ao universo estrelado
De estrelas presas,
Nos longes do céu.

Frias. Ausentes.
São pontos.
Sem história.
Perdidas. Sem tempo.
Se escondem de dia.
Ressurgem salpicos.
Sem conta.
Nas brumas da noite.

Fazem figuras. Com ondas.
No mar das galáxias.
Olhitos vidrados,
De peixes parados,
Sem escama.

Por vezes, saltitam.
Fugindo com medo.

Grassam o céu.
Cometas em fúria,
Se precipitam no nada.

Simulam de chuva.
Parecem granizo.
Se esvaem em fumo.
Não chegam ao chão.

Não fazem buracos.
Na morada que deixam.
São como ratos
Sem cauda,
Fugindo dos gatos,
Que se perdem
Nas brumas da noite.

Mafra, 19 de Abril de 2014
20h55m
Joaquim Luís Mendes Gomes




sete momentos...

Sete momentos...

Me deslumbram as estrelas do céu,
Numa noite luarenta do mês de Agosto.

Me emociona o olhar triste
Dum rosto cansado de esperar.
Como um sorriso de quem passa.

Me consola ver flores derramadas
Por essas encostas fora,
Onde nunca entrou a enxada nem o arado.

E aqueles painéis
De  sol e chuva,
Pintados só
Com as tintas do arco-íris.

Corro ligeiro
Ao lado das águas do rio
Que fluem sem ninguém a puxar por elas.

Oiço enfeitiçado a chilreada alegre
Que brinca à solta,
A mistura com o relinchar dos cavalos,
Meus vizinhos da frente.

E do tinir grave e agudo ao despique
Que me chegam do convento de Mafra.

Regresso a casa
Com minha alma cheia
De aqui voltar
No dia seguinte.

Café-restaurante – os sete momentos, em Mafra,
15 de Março de 2014
9h40m
Joaquim Luís Mendes Gomes


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Manhã de Sábado. Sem sol.
O céu está coalhado de leite e cal.
Correm  lentas estas horas mortas.
Há conversas confusas por essas mesas
E chilreada alegre de crianças.
Oiço o secador das mãos
Na casa de banho,
Em vez do silêncio albo
Das toalhas lavadas.
Tilintam chávenas brancas
Atrás do balcão,
Nas mãos mexidas
Dos empregados.

Já cá não estão
Os velhos donos
Que nos enchiam de sorrisos,
À chegada e à partida.

Alugaram a casa
Mas tudo continua na mesma.

Mafra, 19 de Abril de 2014
10h35m
Joaquim  Luís Mendes Gomes


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