Saturday, September 29, 2012


Como semente

Que se oculta sob a terra,

 Sua vida ao sol

Se suspendeu e se escondeu.

 

Deixou passar

As vagas bem agrestes

Da intempérie que o ameaçavam.

 

E , no silêncio fúnebre da escuridão,

Foi haurir a força, 

Para germinar, para crescer,

E ressurgir em liberdade,

Como planta arbórea,

Carregada de frutos saborosos.

 

Como humildes gotas de água

Que vão em paulatina procissão,

E engrossam ocultos lagos,

Subterrâneos,

Donde brotam fontes eternas

E rios caudalosos.

 

Como os sorrisos ternos

Eas sonoras  gargalhadas das crianças

Levantam vagas

Carregadas de alegria,

A caminho  da escola,

 

 

Assim ele se apagou

E  prostrou num retiro,

Oculto,

Para  germinar …

E,  sei lá quando,

 Muito mais rico

E mais fecundo renascer…

 

Ovar, 29 de Setembro de 2012

6h36m

Friday, September 28, 2012




Como hei-de eu escrever sem luz,

Numa noite negra sem luar,
Onde nem estrelas brilham,

Onde só a neblina brilha triste

Como chama apagada …


Como escrever,
Se tudo fugiu de mim,

Se esqueceu e foi.

Vou sofrer
Até não sei eu quando,

Pode ser que um dia volte…

E me acenda esta mortalha seca
Que me cobre.

Me atice fogo a arder

E eu cante de novo hinos de sol e luz…

Nunca seja em lume brando.

Mafra, 28 de Setembro de 2012
4h51m
ouvindo nocturno de Chopin

Thursday, September 27, 2012


Não sei que trago em mim,

Que me faz fugir,

 Sem ter de quê.

 

Vou pesado…

Carrego a Terra toda,

Sobre a minha cabeça.

Não sei porquê…

 

Se calhar foi daquele dia

Em que bati a porta,

Com a gana toda

E me fui embora…

Lá muito atrás…

No raiar da vida.

 

O melhor pedaço dela

Ficou lá dentro,

Devorado naquela clausura

Sinistra de convento…oculto

Onde reinavam feras

Sob batinas mansas…

Vomitando promessas falsas

E só bebiam água benta.

 

Foi há tanto!...Já nem me lembro.

 

Saí  flor silvestre…

Um rebento tenro…

Daquele monte ao vento,

Onde reinava o sol

E o luar da lua,

Sob um céu estrelado.

 

Meteram-me num vaso

De argila podre,

A abarrotar de estrume.

 

Fiquei mirradinho.

Quase morri.

 

Porque, em vez de sol,

Em nome de Deus…

Só chuva de incenso

E cinza.

 

Ovar, 12 de Setembro de 2012

10h34m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

CHUVA DE OUTUBRO

 

 

 

 

Lenta, a noite caíu.

Nas  negras janelas

Batejam lamentos

De luzes cansadas.

 

 

Ao longo da rua,

Dormitam

Os carros.

E escorrem  sussurros de vento,

Entre as ramagens molhadas.

 

Duas Carcaças de Moliceiros

 

Ali dormem paradas

Duas carcaças,

Já desventradas,

Ao pé da Ria,

De moliceiros.

 

 De tão cansadas,

Tanto moliço,

Anos a fio,

Tirado à Ria,

Levaram no ventre.

 

Adubo dos campos,

Milheirais ao vento,

Searas de ouro,

Hortas de sonho,

Arcas de pão.

 

Lareiras acesas,

Serões em família,

De avós e netos,

Bênçãos do céu.

 

Podeis dormir,

Sossegados,

Moliceiros da ria,

 

Obra do homem,

 Graças de Deus…

 

Ovar, 12 de Setembro de 2012

14h46m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

 

A Árvore dos  “ Diogos”

 

Por sendas de mistério,

Tresmalhados,

Se espalharam pelo mundo.

Outros fados...

 

Casas fartas,

Muitos frutos e casais.

 

Uma árvore imensa,

Com tantos ramos e rebentos

Dum mesmo tronco

Se formou.

 

Imensa copa verde,

Cheia de graça

E muito lume,

Em grande roda,

Aos degraus.

Desde o pé até ao cume. 

 

Fez-se tão grande.

Mal se viam.

Lado a lado.

 

Quis o fado do destino,

Que, por fim,

Se dessem conta

Da grande força,

Entusiasta que os prendia.

 

E um desejo em chama,

De repente se acendeu

E ateou, de lado a lado.

 

Aí vieram

Como elos presos em cadeia,

De mãos dadas.

 

E que corrente,

Em torrente, caudalosa,

Se teceu!…

 

Tantas luzes, reluzentes,

Tantas cores. Ao redor.

Que imponente

E que majestosa

Árvore de Natal

Se ergueu!…

 

Mafra, 25 de Setembro de 2012

4h53m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

 

  

Escrevo  para ti,

Ó quente Verão

Que, tão lesto, partiste,

Quando tudo sorria.

 

Esta chuva de Outono

Deixou minha alma inundada

De pranto.

 

Tudo ficou diferente

E mais triste.

 

Não mais folguedos de pássaros,

Pelas sebes rutilantes de sol…

 

Até as folhas caladas,

Deste arvoredo parado,

Choram da tristeza

Que chega.

 

Meus passos seguem perdidos,

Às cegas,

Sobre um caminho escondido…

Por debaixo do tapete amarelo.

 

Onde estão as pégadas

Daquele sonho desfeito

Que foram deixadas por ti?

 

Não há chuva de outono

Que consiga apagar

Este Verão de lume,

Brando e cinzento

Que me arde e consome,

Cá dentro…

 

Ouvindo concerto nº 21 de Mozart

Mafra, 26 de Setembro de 2012

5h21m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

Pudesse eu voltar atrás.

Iria firme atrás da estrela

Que apareceu

Na manhã da vida.

 

Uma voz me segredou

E bem ouvi.

De largar tudo

E seguir enfim.

Sem vacilar.

Pela sua mão.

Sem olhar para trás.

 

Um pouco adiante…

Não fui capaz

E disse não.

 

Outros apelos,

Caminhos ínvios.

Outro rumo,

À minha conta,

Minha medida.

 

Ao cabo destes anos longos,

Caí num beco

Que não tem saída…

 

Mafra, 27 de Setembro de 2012

8h35m

Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes

Como hei-de eu escrever sem luz numa noite negra sem luar,

Onde nem estrelas brilham, onde só a neblina brilha triste como chama apagada …como escrever se tudo fugiu de mim, se esqueceu e foi. Vou sofrer até não sei quando, po de ser que um dia volte…e me acenda esta mortalha seca que me cobre. Me avive fogo a arder e cante de novo hinos de sol e luz…em lume brando.

 

 

Ao som de Nocturno de Chopin

 

Mafra, 28 de Setembro de 2012

4h51m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

…………………………………………………………………………………………………………………………………………….

 

Como hei-de eu escrever sem luz

Numa noite negra sem luar,

Onde nem estrelas brilham,

Onde só a neblina brilha triste

Como chama apagada …

 

Como escrever,

Se tudo fugiu de mim,

Se esqueceu e foi…

 

Vou sofrer até não sei eu quando,

Pode ser que um dia volte…

E me acenda

Esta mortalha seca que me cobre.

Me atice fogo a arder

E cante de novo

Hinos de sol e luz…

Nunca seja em fogo brando.

 

Estou no salão do Castelão. Café airoso de Mafra. Oiço música ambiente. Uma voz agradável, em canção moderna. Súbitamente, junta-se-lhe uma voz de baixo bem timbrada. Num efeito que me pareceu, a todos os níveis, enriquecedor…parecia a voz forte e grossa daquele membro dos “Divo” …só que, a seguir, dou conta de que era o ruido da máquina de moer café …

Como são, afinal, tão fáceis de enganar nossos ouvidos!...

Mafra, 27 de Setembro de 2012

10h39m

Joaquim Luís Mendes Gomes

Cresceu um grande embondeiro,

no fundo do meu quintal.

Tantos ninhos lá se ergueram,

bem escondidos,

nos seus ramos de gigante.

 

Tantas aves lá se amaram,

sob o sol e sob o luar.

E dali foram…mundo fora…

e ali vinham, cada ano,

sem esquecer.

 

E as alegres sinfonias

Do passaredo

Que ali brincava,

À solta…

Como se fosse o recreio,

Inesquecível,

Da minha escola!...

 

E que sestas lautas,

De frescura,

Ele nos deu!…

 

E que banquetes,

Ali servimos,

Em fraternal animação.

Desde os filhos

Até aos netos…

No paraíso da sua sombra!...

 

Parecia eterno e invencível!...

 

Eis que um furacão,

Vindo, não sei de onde,

Se levantou medonho,

Com tanta sanha…

Que vendaval!...

 

E o embondeiro

Tão preso ao chão,

Quase caíu…

Mas não quebrou!...

 

Mafra, Café Castelão, 27 de Setembro de 2012

11h 38m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

O Grande Dilema

 

Como uma muralha da china,

Prendeu-se ao pescoço.

Um laço de corda esganou.

O ar a faltar…

E fez decidir como nunca pensou.

 

Uma faca no peito,

Escolhe:

Por aqui

Ou por ali…

Ao mesmo tempo,

Facebook…

União conjugal.

Pelos dois é que não!...

 

Nunca pensei

Acontecesse na vida!...

 

O caminho seguir?

 

Que tempestade medonha.

De ventania e de chuva.

Ameaças de morte.

Noitadas de pranto.

Trovões de tremer.

Uma vida em pleno…

Nesta hora tardia!

 

Vai tudo por terra.

No que terás de escolher.

 

A escolha é tua!…

Que havia eu de escolher,

Senão o velho casamento

A este jovem facebook?…

 

Mafra, 27 de Setembro de 2012

22h16m

Joaquim Luís Mendes Gomes

 
 
Como hei-de eu escrever sem luz
Numa noite negra sem luar,
Onde nem estrelas brilham,

Onde só a neblina brilha triste

Como chama apagada …

Como escrever se tudo fugiu de mim,

Se esqueceu e foi.

Vou sofrer até não sei eu quando,

Pode ser que um dia volte…

E me acenda esta mortalha seca que me cobre.

Me atice fogo a arder

E cante de novo hinos de sol e luz…

Nunca seja em lume brando.