TÓINO
As estrelas
-Tóino, chega-te cá ao avô.
O velho sulcado de rugas e anos olhava-o do fundo dum olhar ainda brilhante, forte...Os olhos eram novos, estranhamente novos, no rosto de pergaminho do pescador que deixou de pescar. Olhando-o, o rapaz estremeceu.
-Avô?
-Vem cá, Tóino. Chega-me aqui as estrelas.
E um sorriso bailou no rosto do garoto e, no seu peito, algo pareceu querer fugir. Abriu a janela tosca, mesmo em frente do velho e foi-se, lentamente, chegando a ele.
- Avô!...-diziam os seus olhos negros.
E o avô, estendendo a mão, puxou-o para o colo e olharam juntos as estrelas!
Nas dunas
Era o ritmo do medo, era o grito arrastado e lento do regresso. O vento levava-o em ondas espraiadas e lentas, ecoando nas dunas. Os músculos retesavam-se em blocos rudes, vivos, do esforço e da dor. E o grito ecoava na areia amarela e franzina... chamava-o!
Era o seu próprio grito no fundo da vida do seu corpo pequeno, grito do desejo, da angústia, do suor no cair da tarde! Sombras traçadas no rebentar brusco das ondas em raiva. Conhece-o!...
À sua frente, junto ao seu olhar escuro, vê montes de manchas amarelas e volúveis, aqui e além alaranjadas, montes que giram ao compasso do vento quente da sua respiração. Saltam, fogem e a queda, inevitável, da expiração, molda-as.
Ao garoto encanta-o aquela penumbra trágica dos vales de areia, aquele escorrer crepitante dos rios granulosos ao sôpro do seu próprio ar. O mundo é dele, quando respira...Muda o seu destino naquele círculo amarelado, numa praia esquecida. Aí ele transforma-o, protegendo-o com os braços magros e queimados.
Os homens gritam na faina do fim do dia, em ecos nas dunas...
Os homens gritam..
O garoto não ouve. Escuta antes o silêncio dos destinos que rege, soprando docemente as dunas frágeis do mundo que descobriu, e é dele! Do pedaço de terra que tomou para si e onde reina, mudando as formas e os sons, as vidas e os pensamentos...
Uma senhora da cidade
Uma senhora da cidade beijou-o. Tinha a pele macia e cheirava bem. Deu-lhe rebuçados e um beijo e foi-se embora...
E ele ficou, parado na estrada, a ver o automóvel morrer na curva do monte...
-Avô ! Avô !
Uns olhos radiantes, uma mão no bolso…novidades.
Sorriu-lhe.
-Avô ! Uma senhora « da alta » beijou-me. E deu-me doces ! Vê, avô…tinha a cara tão macia, avô, como, como o pêlo do Macambúzio.
A sua face ria, os rebuçados dançavam-lhe nas mãos, os seus olhos, ansiosos, fitavam o velho, esperavam…
Mas, desta vez, o avô não sorriu !…
Mergulho
Mergulhou…Sentiu o silêncio à sua volta e o coração pulou-lhe no peito. Com um toque brusco do corpo na massa das águas, opaca e verde, apontou para o fundo manchado, que adivinhava.
Ao princípio era um borrão !
Depois os contornos tomaram forma e viu as conchas mesmo à sua frente. Areia que não voa, areia calma, compacta. Ali, só voam bolhas na água salgada…bolhas pequenas…bolhas grandes…bolhas vivas.
Segue-as com o olhar, esquece o fundo, esquece as conchas e, estendendo as mãos pequenas, corre com o corpo, trepa com firmeza até ao cimo, onde as esmaga, bolhas pequenas…bolhas grandes…bolhas que morrem à superfície onde tudo deixa de ser verde para passar a ser azul…
Até as conchas do fundo !
O Macambúzio
O Macambúzio era o seu burro !…Todas as tardes galgava a cerca de paus e corria para ele na erva quente e seca do prado.
Tinha as orelhas espetadas e uns olhos vivos e manhosos sob o enorme chapéu de palha de fita azul. Preto como nenhum…e, numa orelha, macia e fresca, uma nódoa…tão branca !
Zurrava, mal o via .
Manhoso ! E ele, tolo, estendia-lhe cenouras vermelhas roubadas, à sucapa, no quintal do « ti António ». Lambia os beiços, o diabo do burro, e ficava-se à espera, olhando-o de soslaio…Mas só uma festa restava, uma festa suave da mão do rapaz. Então, o Macambúzio zurrava de novo e deixava o garoto montar até que o céu se tornava branco e sujo, as árvores dançavam, as andorinhas se cruzavam, de asas planando, e o menino, saltando contente, desaparecia no fim do prado até sempre…
Deus !…
O avô hoje veio à praia…
Sentou-se num barco desbotado e sonhou !
O garoto olhou-o de esguelha. Em que pensará, ali sentado, fumando sem parar, apesar do calor doentio ?
Tornará ao mar, como outrora em noites de neblina e suor ? Voltará a pegar nas redes fartas, pesadas do peixe que esbraceja na agonia ? Remará de novo na lista de Sol que conduz ao céu ? Pensamentos de velho !…Em que pensará ?
- Tóino, sabes em que penso ?!
Maravilha !…Esperou, esperou ouvindo as ondas bater, lentas, na praia e aspirando o odor do tabaco…
-Não, avô !
-Em…Deus !…
E o garoto abriu a boca, espantado.
A briga
Dois homens brigaram na taberna da aldeia !…Houve mesas voltadas, copos partidos e gritos histéricos.
À tarde, as velhas falavam.
-É um malandro ! Bater na mulher !
E outra acenando com acabeça :
-É um malandro…
Um eco velho a uma frase velha.
E o malandro chorava, de raiva e dor, num beco sombrio, porque o não deixam viver a sua vida !…
O miúdo vibra. Anseia por ser homem para poder lutar, pregar socos rijos no outro, num outro qualquer, desde que possa bater forte…
E conta, exaltado, inventando pormenores que nunca existiram :
-Se visses…se visses, avô !
O avô, desalentado, abana pensativo a cabeça…
Deslumbramento
Espreguiçou o corpo nu no banco duro de madeira e olhou o céu !…O azul, de tão azul, fez-lhe doer os olhos ensonados. Era transparente e escuro, enchendo tudo, os olhos, os ouvidos, os próprios pensamentos e o mar…Sentiu-se estranhamento cansado e cerrou as pálpebras.
O corpo, de um castanho dourado e infantil, esticado na preguiça, estava fresco e molhado. A água aflorava em gotas cheias e prestes a rebentar…E, salgada e livre, batia na madeira, sempre do mesmo modo.
Entreabre os olhos !
De novo um campo azulado…o deslumbramento, o receio. Até onde vai o céu ?!…Até onde ? Uma mão apoiada, o corpo meio erguido, espreita o mundo que conhece nas rochas, no mar, nas conchas e sente-se calmo.
Não tem coragem de encarar de novo o azul transparente mas sente-o, apalpa-o, suporta-o…
E no fundo, bem no fundo, do seu corpo castanho de pescador, adora-o !
A teia
As pálpebras pesaram-lhe dolorosamente…Era a madrugada ! A boca espreguiçou-se largamente, num bocejar mudo. Depois…mais nada. O sono fora-se e sentiu-se só.
Os olhos humidos espreitaram à janela da mnhã. Fios leves e emaranhados, gotas saturadas e fortes, em intervalos docemente anelantes…E os fios a tremerem e, no fundo, tremendo também, uma linha a definir-se. Sombras, sombras nocturnas de pesadelo e fantasia, recortes incertos em linhas frágeis de medo no fundo do seu olhar…
Cerrou os olhos.
Ao reabri-los, acariciou o horizonte com o olhar calmo e lúcido, completamente desperto. Curvava-se, simplesmente, ao ritmo das malhas largas onde, ensonado, se abrigava o orvalho, lá fora…
Na cama, sente a alegria súbita e excitante, de ser o único, o único, pois, no Mundo, a ter espiado, através de uma teia de aranha, tosca e orvalhada, a noite, entre o mar e o céu, a negociar a manhã.
E dando uma volta brusca na cama, ainda mais só se sentiu…
Aqueles dedos sujos…
Os dedos sujos e enrugados transbordavam das botas rotas…Na fenda de uma unha, dormia uma mosca. Aqueles dedos atraíam-no. Olhou os seus pés…Insignificantes, queimados, apareciam, a medo, da rudeza total, uns dedos pequenos e ariscos…Os outros, tinham grandes bolas endurecidas que lhes davam formas engraçadas. Estavam como mortos, imóveis, no sol fraco do anoitecer. Tão imóveis como a mosca…Sentiu inveja daqueles dedos que não cabiam nas botas. Sentiu inveja daquela mosca pequena que descobrira aquela fenda fresquinha entre dois calos rijos e descaradamente negros de pó.
Quis ter uns pés assim.
De novo olhou para os seus, irrequietos e lisos, terrivelmente lisos e, de súbito, furioso, fez uma cova na areia e meteu-os lá dentro…
As formigas
Os lábios, docemente vincados no rosto queimado, moveram-se pensativos. Nem um murmúrio.
-Que viste hoje, Tóino ?
Como adivinhou ?!…
-Vi as formigas, avô !
O rosto do velho iluminou-se.
-E que te disseram ?
Face fechada, bem apoiada nas mãos pequenas, ficou-se pensando. Que lhe tinham dito elas ?…Passavam em fila, pontinhos negros de orgulho. Votavam-no ao desprezo…Caminhavam sós e, embora se falassem muitas vezes, sós ficavam. Pareciam-se, era isso…pareciam-se com eles, sempre sós, os dois. Vinham outros pescadores, vinham mulheres da aldeia, vinham garotos amigos, vinham e tornavam a partir e a solidão ficava. O avô e ele…ele e o avô…A sua expressão foi-se alterando, segundo os pensamentos, e foi com uma facezita entristecida que respondeu em voz branda e tímida :
-Disseram-me …como nós somos parecidos com elas.
O sorriso morreu nos lábios finos, sem côr, e um murmúrio se ouviu à mistura com o odôr que provinha do cachimbo do velho.
-É assim, Tóino, não te mentiram. Somos formigas…
E o avô chorou.
Dois mais dois…
2 + 2 = 4 – repetia ela no rectângulo negro e macio do quadro.
Repetia.
Vai haver temporal, dissera o avô...E o temporal traz vento assobiando nas areias em louca debandada, ondas ruidosas e tristes atirando-se, magoando-se, nas rochas aguçadas, chuva pingando no tecto da cabana e um frio mole e viscoso sob os cobertores escassos...traz o enteiriçar dos membros pequenos e franzinos junto à lareira inútil!
E o velho não conseguirá encher o cachimbo da noite. Ficarão ambos calados, meio encolhidos nas mantas sobre os ombros, olhando o lume. Haverá trovoada?...Haverá?
2 + 2 = 4, repetia ela. E o garoto, de olhos tristes pousados no giz, interroga-se.
- Haverá temporal?
Temporal
Acontecera!...O temporal desabara. A cabana estremecia em cada trovão, em cada relâmpago, ardia em cada rajada fria e seca.
À lareira o avô meditava, meditava na vida e na morte...É velho! As achas estalavam, franzinas, no meio da borrasca. Ao vento e a elas juntavam-se gritos e rumores do mundo selvagem lá de fora. Era o temporal dos sons....dos sons do próprio sangue...dos sons do medo na alma do rapaz...
Deitado na enxerga e no corpo, tapava a cabeça com a manta e soluçava baixinho, de mansinho, embora a garganta lhe doesse e as lágrimas magoassem ao saltar dos cantos irritados dos olhos. No fundo do seu choro envergonhado e sentido transparece a saudade! E recorda aquela outra noite de borrasca...
Um soluço mais forte sobressalta o avô! Mas como é que não dera ainda...E já uma mão tépida corre para a testa suada e uma voz doce sobe acima de todos os sons do mundo lá de fora e do próprio mundo das suas almas para sussurrar:
-Se ele está no Céu, Tóino!...
Os soluços abrandam. O garoto olha-o.
-Numa estrela, avô?
Com um sorriso:
-Numa estrela, sim.
De olhos no tecto o miúdo vê. Vê o pai tisnado e duro, levando-o às cavalitas para uma estrela, como o avô diz, numa noite de temporal...
E este torna, sorrindo, à lareira e à meditação! É que o neto adormeceu com estrelas no olhar...
As luzes do povoado...
Nas luzes do povoado tremem vestigios, presságios!
Uma aqui, outra, pairam vidas...
Ao longe, nas bandas do mar, uma luz diferente, arisca e hesitante...o farol. E um barquito qoe passa. É louco!
O mar não se vê, pressente-se, na brisa fresca que esbraceja no arvoredo, no negrume que começa, súbito, no fim das luzes. A praia é lá, em baixo, na concha dos rochedos, em torno, e ouve-se o ruido surdo da revolta em espuma...lá!
Os barcos que partiram numa esteira dourada regressam lentos na escuridão sem luar.
Cadenciado, embalador, é o rumor do homem do mar....
Os olhos cerram-se, tontos, no ritmo dos remos longíquos.
Numa luz solitária, bem junto ao peixe e às conchas, um garoto adormece.
O pescador retesa os braços com mais força...e mais...
Nas luzes do povoado, tremem destinos, presságios!
Fantoches...
-Don Robertos – exclamou um “snob” que tomava, vermelhusco, banhos de sol.
-Fantoches – exclamava a petizada correndo e tropeçando na areia fina.
Ratos brancos, macios, trepando em escadas estreitas.
Uma tourada, com touro. E a pequenada em ondas de gargalhada, vibrante, acenava, vivia nos bonecos de pau.
O velho, trôpego e mal sentado, ria baixinho...só para si! Fazia-lhe lembrar tanta coisa! Tanta! Bonecos e trapos, ratos, uma voz aflautada, tudo o que preenchera a sua vida de catraio. Corria como louco da cabana à praia, para poder espreitar pelas fendas da barraca. E depois, era o riso que lhe estalava no peito, eram os momentos em que tudo esquecia e era criança, era o final humilhante em que fugia para o barco porque não tinha tostões para dar...
Os olhos do velho sorriam muito, mas o sorriso morreu, lentamente, nos lábios engelhados – junto às águas, de costas agressivamente voltadas à alegria de todo o miúdo, Tóino ficara-se olhando o mar revolto, com paixão.
Aquela poça...
Nunca tinha visto tanto sangue! E ali estava uma poça grande, semelhando um borrão de tinta num papel amarrotado. O rubro encanta-o!
À volta há gritos, soam sirenes. O desastre acaba de se dar. Ecoam no ar gemidos abafados, no ar que ele respira.
Mas só a poça o atrai, enorme e escarlate. É aquele liquido que corre nos traços azulados da sua mão aberta? É aquela côr agreste que mata, quando foge, todo um corpo pálido e franzino?
Será o sangue vivo que escorre nele, que ele pressente em ondas de espuma, igual àquela poça escura e quente? Pôs-lhe um pé em cima...é pegajoso!
Um carro que parte, um homem que morre...
E o lago vermelho fascinando um garoto selvagem impede-o de viver o drama. Para ele, a vida é a poça, a vida que já terminou e permanece porque vive em cada um.
Uma mão pousa-lhe, mansamente, no ombro e impele-o para o carreiro.
E o velho murmura:
-Vamos, Tóino...é tarde.
Ao fundo, a poça de sangue parecia ter abrangido o céu inteiro, no cair da tarde.
Escamas em telha.
Mordera o isco!
Era um peixe pequeno e esguio, tão arisco como ele. Dançava na ponta do fio agarrado ao gancho avermelhado...Os olhos abertos pareciam as contas de vidro do terço que as velhas rezavam junto à lareira, nos serões de Inverno. Prateado, em telhas de escamas flexiveis , era um peixe, mais...era o primeiro peixe que pescava. Os lábios estreitaram-se-lhe num sorriso, as mãos ávidas palparam o corpo frágil do peixe raquitico e sentiu que o Mundo era dele. Pescara um peixe!...E como era grande! Quase apostava...
E o sorriso crescia, arrepanhava-lhe as faces morenas, enquanto, nos olhos negros do menino o peixe balouçava, tão grande, na ponta do fio. A garganta doía-lhe.
-Oh! Avô...
Do fio rudimentar, pendia um peixe pequeno e esguio de telhas em prata e sonhos de criança...
O barco de papel
Dobrou ao meio o papel amarrotado e ficou-se olhando a poça de água transparente, nas rochas. No fundo, rente aos limos verdes e viscosos, correm os caranguejos em passos desajeitados de dez patas.
Chega até ele, por entre o nevoeiro quente do Verão, o estertor das vagas, mais além...
Os dedos ágeis tornam a dobrar, agora com mais vigor.
O avô, mole do calor da tarde, observa-o.
E o miúdo torna a dobrar, olhando a água parada e clara onde escorregam os caranguejos, ouvindo cada vez mais longe os lamentos esfacelados do oceano...
O velho ergue-se levemente. Mas que diabo?!...
O garoto parou. Curvou-se todo para as rochas e ficou quieto, tão quieto.
-Aquele catraio...
O garoto não o pressente. Espreita-o.
Nas águas do pequeno lago, molemente arrastado pela brisa, voga, destemido, um barquito de papel, um papel velho e esfarrapado como o próprio Tempo.
E, pela primeira vez ele viu o neto a brincar...
O Mestre!
Quando o barco corta a espuma, há terror nas ondas esquivas, laivadas de medo, aqui, além, em toda a parte...
-Eh! Tóino, em que cismas, catraio?
O garoto ama o Mestre!...
-Eu?!
E fica-se olhando-o, abismado.
-Tu, sim.
As lágrimas, lá vêm elas!...A manga suja da camisa aos quadrados corre para os olhos negros, para o nariz.
O Mestre!...O Mestre!...
O Mestre sorri!
-Penso...penso...que o mar tem medo de nós. Ora aí está!
Fica à espera, o corpo rígido, a respiração suspensa...Ir-se-á rir o Mestre?!
Não! Não riu.
Com um brilho estranho nos olhos verdes, duros, ele olha a espuma fugitiva que o barco corta e murmura:
-E tem, Tóino, ele tem medo de nós...
O peito parece querer estalar-lhe de orgulho.
Tudo enegreceu, de súbito!...
As pupilas pequenas e volúveis tremeram, enovelaram-se.
O garoto esfregou os olhos, encantado. Todo o vale, aninhado e morno, se enrosca na noite, na escuridão que nasce da terra, do mar, dos homens. O vento brando traz murmúrios das rochas, dos peixes, dos que não existem na luz do dia.
O velho chega-se junto a ele. Os olhos azuis...porque serão tão azuis?...semicerram-se, e, do peito, ainda robusto, sai um gemido.
O miúdo vira-se, com o espanto nos olhos piscos, na testa em rugas finas e cremadas.
Irrita-se...
-Avô?
Porque gemeu ele?!...
Torna a mergulhar os olhos no vale palpitante de vida, selvagem.
E, naquele momento, não amou o velho!
Luar!
...Uma forma exótica de luar na curva doce do rio!
E um barco a vogar nas sombras, nos recantos perdidos sob as árvores!
-Avô, porque existem as sombras? Porque não há só luar nas águas do rio?
Luar?!...
Aquela mancha branca de palavras e silêncios, aquela réstea implacável nas noites de morte? É isso!...Quando ele morrera, havia luar. E mais tarde, na praia, o seu rosto torcido brilhara à sua frente trazido pelo mar, roído, esfacelado, com amargo sabor a maresia.
Chorara como só um velho sabe chorar em gemidos fundos e loucos em soluços agrestes.
Chorara!
Ah! Aquela claridade pálida, aquela fibra sem côr e sem vida, marcando-lhe os traços roídos do rosto.
...O luar!
-Tóino! - gritou.
E vibrava o desespero da recordação na voz dorida...
-Avô! – murmurou assustado, o rostozinho erguido à luz baça do luar...
-Tóino, sai daí...- e, mansamente – Tóino, porque existe o luar? Porque não há só sombras nas águas do rio?!...
Cachos de uvas....
Um cacho de uvas, grandes, cheias. Uvas negras de tons roxos e brejeiros...uvas acres, ébrias...
Estendeu a mão, o coração em loucos saltos no peito. E se ele fugisse, saltando, um dia? Que gargalhada estranha na solidão do lugar, nos reflexos do sol, nas uvas selvagens! Que alegria mole, que loucura negra nos cachos pesados, nas latadas doridas, cheias...cheias.
Na sombra esquecida de um velho moinho comem-se bem uvas bravas! E o vinho de sabor ingénuo escorre dos cantos disformes da boca fechada. Escorre, palpita, nas carnes, no sangue. Cresce o fresco roxo de leves tonturas no corpo estirado. Os olhos cerram-se, caiem as pálpebras sem querer.
O tempo...
Quando acordou era já noite e das uvas pendentes nos cachos ébrios...além, só sombras restavam.
O velho dos piões
-Quando fores à aldeia...
Subiu a escada, estreita e escura, de cheiro a bafio e degraus de madeira, mal seguros.
Que engraçado, as pessoas viverem assim, empoleiradas nas casas. Como as galinhas!
Bateu à porta com os dedos em curvas de força. Abanou e os gonzos rangeram. Passos arrastados e uma faixa de luz vinda de uma janela tosca no cimo da parede.
-Quando fores à aldeia...
Lembrava-se dele! Velho, mais velho ainda que o avô. Carcomido, engelhado, todo feito de rugas e peles, tinha os olhos mais lindos que ele já vira! Verdes, verdes como os do Mestre, é verdade, e fundos como o medo e a solidão!...Também fumava um cachimbo sem côr e perfumado como o avô e tinha fechada, num saco de trapos sujo e triste, a alegria da rapaziada – os piões. Talvez que ele...
A porta escancarou-se e os seus olhos penetraram no olhar esverdeado do velho. Sorriu. Uma mão secular, de veias túrgidas e finas, revolveu-lhe o cabelo encaracolado e um fio de voz saudou:
- Viva, rapaz...
A porta fechou-se de novo.
Copo partido
Olhava o copo partido com olhar estranho. Os olhos nem pareciam olhos...Talvez cavernas batidas das ondas, no fundo das ravinas. A boca torcida, apertava um cigarro, num jeito de homem. Que pensaria o avô se...Tinha um vestido vermelho onde a carne se via e os braços à mostra, brancos e rosados. As mãos tremiam. Porquê?!..
O copo estava partido.
A cinza caía-lhe, da ponta latente do cigarro.
Lentamente, os dedos de unhas brilhantes amassaram-na na toalha branca, espalmaram-na nos nervos, no sangue, no cérebro...e ela chorou. Caíram-lhe lágrimas dos olhos doridos, semelhando abismos solitários num mar desconhecido. Caíram e rolaram por sobre a carne rosada, a cinza e a toalha...tão branca.
E o copo estava partido.
O garoto sofreu. Abriu a porta, brusco, não olhou mais as lágrimas escorrendo silenciosas e amargas. E abrindo os olhos à lareira da cabana, ao avô espantado, murmurou:
-Eu vi-a,avô!...Ela chorou!...
Tic...Tac!
Tic...tac!...Tic...tac!
É a vida que se escoa no relógio da torre...Campanário do mar, do sabor do sal e do peixe, do homem...das ondas! Conta destinos, ilusões. Pulsa nele o rosto sombrio do garoto que corre, corre. Para onde?
Tic...tac! Tic...tac!
A viúva é doida, dizem. É louca. Grita ao anoitecer do cimo da falésia. E o grito ecoa no ritmo do relógio...lá, na torre.
Dizem que o mar lhe levou o tino. Não, não foi o mar. Foi aquele...além, no andar lento dos ponteiros. Ele...
Tic...tac! Tic...tac!
Não pára. É a vida.
Ecoam gritos no mar, ao longe. Cabeças que se erguem, mãos que se estendem, lenços que voam. E os olhos, erguidos, auscultam o pulsar calmo e cruel, lá no cimo.
É a hora da partida...
É a hora do regresso...
Tic...tac! Tic...tac!
O relógio do destino é que os traz e é que os leva e é o mar que decide, no seu bater sem pressa, ritmado, parecendo dizer – tic...tac...tic...tac...
Caracóis...bolos...
Balouçava, molemente, no ramo vergado! Braços e pernas entrelaçados nas rugas frescas e ásperas da árvore.
Cabeça caída, ao desafio, via um laivo de água escorrer apressado, aos borbotões, de uma fenda estreita e enfezada. Os seus olhos esquecidos mergulhavam na água gelada e iam murmurando, em prece dolente...
- Quando eu fôr para a faina há-de haver festa rija nesse dia! O avô comprará caracóis, laranjadas e bolos de creme, mesmo...
...E comerão à noitinha quando o mar o trouxer e contarão histórias fantásticas nunca vividas e...
O rapazio corre à desfilada junto dele.
- Anda daí, Tóino...Vamos atirar um papagaio no vale...
Abana a cabeça! Sim ou não? Os outros já partem, chamando, gritando nos cantos de sol onde dormitam garotos semi-nus.
Tóino deixa cair, preguiçoso, os pés descalços que batem no chão seco com um leve tremor de receio. Estica os braços, o peito, a alma e sente-se meio adormecido no torpor das sombras e das formas.
A água borbulha-lhe aos ouvidos...Zumbe! Água em cascata aos seus pés.
Joelhos em terra, mergulha os lábios gretados na insipidez deliciosa da fonte tosca. Sorve, gulosamente, sôfregamente.
E recomeça, à mistura com a água que lhe adoça os lábios, em lenga-lenga monótona e íntima que lhe enche a alma:
-Quando eu fôr para a faina...
No vale, em gritos alegres, a garotada atira um papagaio.
.
O outro olhou-o...
Tinha um fato “chique” como os “tipos” da cidade. Um casaco, de pele na gola, umas botas castanhas e um boné de pala.
Sentado de banda no caixote das bolachas, o garoto inveja-o, detesta-o. Sente a camisa grosseira de grandes quadrados na fazenda barata, sente os pés nus, marcados do pó dos caminhos, sente o cabelo revolto no vento da tarde, em madeixas infantis.
O outro olhou-o.
O peito enche-se-lhe de uma forma estranha, os punhos cerram-se contra as tábuas e o ódio vinca-lhe as faces.
-Porque olhas? Lembra-te, eu tenho o mar!...
E erguendo a cabeça, onde tudo se confunde e o ódio cega, pôs-se a assobiar...
Uma nuvem
Agachados na colina que sobranceia a vila, os garotos jogavam ao pião. Pequenino, reboludo, burguês pacato, o pião presta-se ao jogo e gira, gira sorrindo nas bochechas gordas de pau.
Algaraviada no monte. Joga-se o pião do Chico!
A linha enrosca-se meigamente no pescoço frágil...Um puxão e os olhos girando, às voltas. Olhos verdes, olhos negros...E as voltas iguais no arco-íris dos olhares.
Lá em baixo, nas casas, ecoam três vezes nos abismos, as gargalhadas, os gritos, da garotada do pião.
O rodopio morreu. A corda mole, sem forma, palpita. A madeira freme. Os dedos sujos precipitam-se.
-Tóino, és tu...
O silêncio perpassou, lentamente estranho. Uma abelha zumbiu forte.
- Deixa-o, não está cá.
E o Tóino, de olhos perdidos no espaço, observa quão bizarra é aquela nuvem solitária no céu tão azul...
Apelo
Costumava parar no caminho de terra a observar as gentes no café.Tão diferentes! Comiam bolos, bebiam copos rosados ou escuros, dourados de espuma. E as crianças corriam a apanhar as tampas no chão e riam. Pulavam gelados de cores pelo ar em revoadas frescas de anseios até mãos pequenas e estendidas. Tocava a música bem alto e namorava-se além... aqui...
Ele olhava, olhava e a boca abria-se-lhe a tudo aquilo, tão estranho...
E se ele...Aproximava-se, via mais de perto e mais...De súbito, soava-lhe aos ouvidos o grito do barco ao lançar as redes na noite estrelada, revia as dunas sombrias e rudes, as dunas frágeis do seu sonho e, voltando costas a tudo corria, voava como louco. Menino doido de fantasia e receio. Ao contacto mole da praia, atirava-se, meio-morto, para o chão escaldante e, abrindo os braços, bem esticados, corpo sujo sentindo a crueza do sol a queimá-lo, a apertá-lo com força, soltava um longo suspiro e era feliz!
A florista
-Aquele ramo acolá...Quanto é?
E a florista, bem disposta não se sabe porquê, responde sorridente...
-Dez euros!
Do lado de fora, com o nariz bem pegado ao vidro fresco da montra, um rosto pequeno e oval, de grandes olhos negros e boca bem modelada fita um cesto garrido de onde escorrem rosas vermelhas e brancas...O garoto leva a mão às calças já gastas e tira um velho porta-moedas descosido e sem côr. Conta!...E torna a colar o rosto desalentado de encontro o ramo, do outro lado do vidro.
Nos olhos brilhantes dançam as lágrimas. Um velho calado e manso, dá-lhe a mão e chama-o.
-Tóino!...
O miúdo volta-se, olha ainda para trás.
E a florista, hoje bem disposta não se sabe porquê, pega na rosa mais rubra do ramo e...
-Tóino!...
Nos olhos da criança, de cabeça virada, brilha um sorriso por entre as lágrimas vidradas.
Ao longe, no caminho que leva à praia, vão um velho e um menino rindo tolamente para uma rosa vermelha!...
Chovera!...
Era de noite e chovera. Os pés, descalços, batiam na água da lama - chap!...chap!...
De cabeça ao de leve inclinada, imita com o cérebro – chap!...chap!...e com o sangue – chap!...chap!...e com a lingua – chap!...chap!...
As luzes mortas dos candeeiros, meio-adormecidos, ensopam as ruas brilhantes e molhadas numa mancha morna e sensaborona...
E o sangue - chap!...chap!...
Um carro passa, louco na noite louca de chuva e sons.
E o cérebro – chap!...chap!...
O avô espera-o.
A malga espera-o.
A lareira espera-o.
Todo o mundo o espera...
E a lingua – chap!...chap!...
Chovera...e tudo, na chuva, se resume a um eco constante na gente que passa – chap!...chap!...
Na cabana tosca o velho, assustado e medroso, espera, espera, enquanto lá fora no vão de pedra, nu, os pingos caiem e escorrem – chap!...chap!...
Os sinos!...
Repicaram!...Tão ao longe, mal se reconhecem os sinos da aldeia.
Atirado ao acaso na areia louca, olha-a, olha-a como no primeiro dia, à procura!
E o sol, batendo em mansas tiras de luz, forma sombras ao pé dele. Bem coladas! Uma teia pequena, frágil, em fios curtos e flexiveis de luz fazem-no sentir cheio, estranahmente cheio...
Volta o rosto. Tem medo.
Em gestos brandos de preguiça, põe-se de gatas, levanta-se. Na cabana sai fumo em longos rolos de satisfação. Desaparece, volta e apaga-se, brandamente, onde o olhar já não vê. Sonha com o avô sentado na cadeira de balouço, onde já o pai dele se sentava, com o almoço frugal, tão íntimo, que nasce no fumo que se escoa do tunel apertado da chaminé, com o passeio à vila pelo braço rijo do avô...
O orgulho...
De novo o coração lhe pula, alegremente, na calma do dia que o espera, igual aos outros.
Repicaram!...E, desta vez, pareciam bater mesmo no fundo do peito tisnado do garoto!
A miúda dos bolos
Era a miúda dos bolos!
Boca aberta, molhada, onde assomavam dois dentes branquinhos, os olhos quase fechados, cheios de lágrimas, os punhos cerrados...tudo nela era choro.
É uma chorona, a miúda dos bolos...
-Olha, gostas de conchas?
Os olhos abriram umas gretinhas marotas e espreitaram as cores, as formas rosadas do búzio.
Estendeu a mão, cheia de pequenas covas.
- Não, só se parares de chorar.
Franziu a testa e, lentamente, os soluços abrandaram mais e os olhos apareceram todos, negros e vivos tais como...é isso, tais como os olhos do Macambúzio.
O garoto esperou.
A criança olhou-o de lado, parou de chorar e os seus dedos puseram-se a brincar com as tranças pequenas e atrevidas. Era a calma perfeita.
Então o garoto deu-lhe a concha e sorriu.
Mas...o beicinho nasceu de novo, cresceu nos lábios vermelhos e, mais irritado ainda, o choro voltou. A concha, essa estava bem apertada na mão, cheia de covas.
- Manhosa!...Manhosa!...
Ficou-se, humilhado, a vê-la, no seu passo miúdo, a caminho de casa. Afinal, vendo bem - e de novo sorriu – ele devia ter desconfiado. Pois se ela tinha, tal e qual, os olhos do Macambúzio!...
Regresso
...E a corda rolando nos passos dos homens...
Músculos tensos!...E a corda a rolar!...
Arfar sufocado, gemido longo como longo é o mar que se alcança. Está quente a tarde, a areia escalda! O suor escorre, mergulha nas golas sujas, nos corpos de cheiro activo que enjoa...Cheiro do pescador e da corda, cheiro das redes a abarrotar de peixe saltando em pilhas de vida a esvair-se, cheiro da vida que o peixe mantém. Esmola!
E os músculos doridos e os dedos brancos de esforço enquanto a corda torce...
Um garoto, ritmado e esguio, enrola o fim da corda que rola nos passos dos homens.
- Eh! Tóino, mais força homem.
Pernas fincadas, ele tenta, tenta aprender o preço da vida que o peixe traz, tenta encher-se do cheiro que nasce, na volta dos barcos, ao puxar das redes, tenta sentir nos braços, em fogo, promessas, sonhos...
E enquanto a corda, rolando, rolando, atinge o fim, o garoto de nervos em arco e cabeça a estalar, sente-se velho...
Voarás?...
Bem marcados, os passos incertos, no caminho. Caminho longo, quase sem fim...
- Avô, avô, porque voam os pássaros?
Perguntas!...
- Voam, sim, eles voam! Mas, porque voarão...lá, nas nuvens, no céu?
- Se eu abrir os braços, avô, também vôo?
Voará?...Ah! Garoto, voarás?
O pó mexe-se, inquieto, ao contacto da brisa do entardecer. O caminho, infinito, estende-se, estende-se...Brandamente.
- Sim Tóino, voas, mas é preciso que olhes sempre para cima, sempre...sempre...
- Mentira?
Uma guinada, uma carreira louca e uma figura pequena e delgada alcançando o fim do infinito, de braços abertos e olhos no céu...voando?
Em torno dela, esvoaça, meigamente a medo, o pó fino do caminho.
O combóio
O combóio atravessa a planicie. Fumo negro, espesso, amarelado e branco! Fumo quente, escaldante nas manhãs, nas tardes, talvez nas noites!
No monte é o silêncio e, ao longe, o pressentimento. Momentos, vidas, e escuta-se o apito no eco dos montes...A máquina gira que gira em voltas cercadas de árvores...E o fumo que dança, gira também!
O apito nasce, morre em soluços mimados, apontando-o no fundo do vale!
A cancela abre-se, lá em baixo. Garotos correm, a vê-lo de perto. E perde o interesse. Parado, enorme, pesado, não tem piada. Depois...
-Eh! Tóino, lá vai ele outra vez.
Dedos espetados, olhos perdidos, atiram ao ar gritos, risadas.
E o combóio pequeno, leve, quase fumo, corre de novo às voltas girando, cercado de árvores...O apito canta seu eco preferido nos montes em volta até que o silêncio paira.
O silêncio!...
Debandada louca de corridas e gargalhadas.
É o entardecer e, lá, onde já se não ouve, o combóio apita numa nuvem côr-de-rosa!...
A sombra
Por entre os pinheiros, agudos e sombrios, nasce o odor a rosmaninho. E o sol cai em dobras finas, regatos secos do campo.
Sob uma árvore grande está a sombra e a sombra não pensa! Pensa o velho por ela...A sombra não recorda, recorda o velho...A sombra nem existe! Existirá o velho? O velho que mergulhou na criancice, na tarde de sol?
Brisa quente com cheiro a ervas rasteiras e a saudade.
Debaixo da árvore...
...Belas amoras comidas ao desafio até fartar, carreiras loucas de cansaço e abandono, banhos frios, em frias ribeiras, sonhos! O mar...O mar lá ao fundo, bem longe dos pinheiros e do sol e cheio, tão cheio, de sombras que não pensam, não recordam, não existem...Infância de borboletas e conchas, de pó e de rochas. Fantasia do passado em ondas de recordação...
Debaixo da mesma árvore, sonha um menino.
Cheiro a clorofórmio
Cheira a clorofórmio e a doenças. As paredes brancas enjoam, fazem rodopiar as cadeiras e os bancos, as pessoas e os pensamentos...
Alguém lhe palpa a testa com rudeza. As paredes têm remendos como as velas dos barcos! E tremem, no relevo das ondas e do peixe esquivo, nas barbatanas de metal da luz do dia, mansamente...Dançam no cheiro acre, nas batas brancas em frente, na mão que não é mão, na febre e no desejo.
Porque terá a garganta um sabor amargo, porque pesará o peito no corpo, porque queimarão os olhos meio-cerrados?
- Avô!...Avô!...- a garganta vibra em dores agudas.
Uma voz doce de mulher:
- O Avô vem já, querido.
Querido! Tal como ela dizia! A mãe boia-lhe na retina, na memória, no queimado ardor dos olhos, na dor no peito...
- Avô!...- e a garganta dói menos.
No corredor onde dançam as paredes e o cheiro a clorofórmio, um velho, todo curvado, chora baixinho como uma criança.
Fogo!
Fogo! Há fogo no monte. Gente que corre, corações que doiem, gritos abafados nos xailes compridos e negros!...
Tóino ergue-se, na cama rija, com a cabeça a escaldar de anseio e corre também.
Labaredas em debandada no cimo das árvores, do verde prado, do monte...Chamas vermelhas, negras de fumo e receio, no nascer do dia. Um laivo de fogo desce o atalho. Apressa-se a gente a apagá-lo. Há uma casa perto...Há vidas ao pé do lume, ateado no cabeço....Há quentes lufadas que sopram no vale e esquentam os corpos que esperam.
E eles... lá, no mar!...
Remam que remam no fresco da brisa, sonham que sonham na aldeia distante, na aldeia esquentada do vale esquecido junto a um monte que arde, cansado...
No fundo da alma, o garoto dói-se daquele grande bocado de terra suicida! sente dó, angústia! E lentamente volta para a cama arrastando nos passos o peso do fogo e do monte!...
Só rochas...abismos
Entrava o sol a jorros naquela janela. Sol fragmentado por quatro traves rústicas, de boas intenções, coado pelo vidro manchado de pó e cores.
Em frente à janela, só rochas e abismos e, ao fundo, bem ao fundo, o mar com o sol a entrar nele como entra na aldeia, no vale, nos olhos enormes e cansados dos pescadores...
Ali, junto dela, vendo a luz filtrada, vinda não sabe de onde, o garoto fica horas.
“...e à berma da estrada havia uma árvore vermelha, de folhas pálidas, de folhas caídas raspando no chão, de folhas sulcando nos pensamentos turvos do fim de Outono! Leves, brisa ténue do sol-pôr, erguiam turbilhões no céu...vinha o arco-íris. E vinha o doce rumor da escuridão, no canto das folhas caindo, de novo, na árvore vermelha da berma da estrada dos seus sonhos...”
- É noite, rapaz. Chega-te à lareira que está frio...anda.
- Sim, avô.
...Em frente à janela só rochas e abismos e, ao fundo, bem ao fundo, a noite!...
Tóino
...E um dia o garoto foi para o mar!
O velho pescador, de cachimbo apagado, viu-o partir...viu-o voltar...
Nas rochas entumescidas, espraiadas de azul, ressoou o grito dos remos e ele fugiu para onde não há mar, nem peixe, nem homens, e se pode chorar...
- Tóino – traz-lhe o vento.
- Tóino – arrastam as árvores.
- Tóino – ecoa nos abismos!
Ah! Velho tonto...Apaga as lágrimas, compõe um sorriso. Na cabana esperam-te bolos, caracóis e um menino de olhos negros e anseios.
...E um dia o garoto foi para o mar! Voltou homem...onde os sonhos já não cabem!...
As estrelas
-Tóino, chega-te cá ao avô.
O velho sulcado de rugas e anos olhava-o do fundo dum olhar ainda brilhante, forte...Os olhos eram novos, estranhamente novos, no rosto de pergaminho do pescador que deixou de pescar. Olhando-o, o rapaz estremeceu.
-Avô?
-Vem cá, Tóino. Chega-me aqui as estrelas.
E um sorriso bailou no rosto do garoto e, no seu peito, algo pareceu querer fugir. Abriu a janela tosca, mesmo em frente do velho e foi-se, lentamente, chegando a ele.
- Avô!...-diziam os seus olhos negros.
E o avô, estendendo a mão, puxou-o para o colo e olharam juntos as estrelas!
Nas dunas
Era o ritmo do medo, era o grito arrastado e lento do regresso. O vento levava-o em ondas espraiadas e lentas, ecoando nas dunas. Os músculos retesavam-se em blocos rudes, vivos, do esforço e da dor. E o grito ecoava na areia amarela e franzina... chamava-o!
Era o seu próprio grito no fundo da vida do seu corpo pequeno, grito do desejo, da angústia, do suor no cair da tarde! Sombras traçadas no rebentar brusco das ondas em raiva. Conhece-o!...
À sua frente, junto ao seu olhar escuro, vê montes de manchas amarelas e volúveis, aqui e além alaranjadas, montes que giram ao compasso do vento quente da sua respiração. Saltam, fogem e a queda, inevitável, da expiração, molda-as.
Ao garoto encanta-o aquela penumbra trágica dos vales de areia, aquele escorrer crepitante dos rios granulosos ao sôpro do seu próprio ar. O mundo é dele, quando respira...Muda o seu destino naquele círculo amarelado, numa praia esquecida. Aí ele transforma-o, protegendo-o com os braços magros e queimados.
Os homens gritam na faina do fim do dia, em ecos nas dunas...
Os homens gritam..
O garoto não ouve. Escuta antes o silêncio dos destinos que rege, soprando docemente as dunas frágeis do mundo que descobriu, e é dele! Do pedaço de terra que tomou para si e onde reina, mudando as formas e os sons, as vidas e os pensamentos...
Uma senhora da cidade
Uma senhora da cidade beijou-o. Tinha a pele macia e cheirava bem. Deu-lhe rebuçados e um beijo e foi-se embora...
E ele ficou, parado na estrada, a ver o automóvel morrer na curva do monte...
-Avô ! Avô !
Uns olhos radiantes, uma mão no bolso…novidades.
Sorriu-lhe.
-Avô ! Uma senhora « da alta » beijou-me. E deu-me doces ! Vê, avô…tinha a cara tão macia, avô, como, como o pêlo do Macambúzio.
A sua face ria, os rebuçados dançavam-lhe nas mãos, os seus olhos, ansiosos, fitavam o velho, esperavam…
Mas, desta vez, o avô não sorriu !…
Mergulho
Mergulhou…Sentiu o silêncio à sua volta e o coração pulou-lhe no peito. Com um toque brusco do corpo na massa das águas, opaca e verde, apontou para o fundo manchado, que adivinhava.
Ao princípio era um borrão !
Depois os contornos tomaram forma e viu as conchas mesmo à sua frente. Areia que não voa, areia calma, compacta. Ali, só voam bolhas na água salgada…bolhas pequenas…bolhas grandes…bolhas vivas.
Segue-as com o olhar, esquece o fundo, esquece as conchas e, estendendo as mãos pequenas, corre com o corpo, trepa com firmeza até ao cimo, onde as esmaga, bolhas pequenas…bolhas grandes…bolhas que morrem à superfície onde tudo deixa de ser verde para passar a ser azul…
Até as conchas do fundo !
O Macambúzio
O Macambúzio era o seu burro !…Todas as tardes galgava a cerca de paus e corria para ele na erva quente e seca do prado.
Tinha as orelhas espetadas e uns olhos vivos e manhosos sob o enorme chapéu de palha de fita azul. Preto como nenhum…e, numa orelha, macia e fresca, uma nódoa…tão branca !
Zurrava, mal o via .
Manhoso ! E ele, tolo, estendia-lhe cenouras vermelhas roubadas, à sucapa, no quintal do « ti António ». Lambia os beiços, o diabo do burro, e ficava-se à espera, olhando-o de soslaio…Mas só uma festa restava, uma festa suave da mão do rapaz. Então, o Macambúzio zurrava de novo e deixava o garoto montar até que o céu se tornava branco e sujo, as árvores dançavam, as andorinhas se cruzavam, de asas planando, e o menino, saltando contente, desaparecia no fim do prado até sempre…
Deus !…
O avô hoje veio à praia…
Sentou-se num barco desbotado e sonhou !
O garoto olhou-o de esguelha. Em que pensará, ali sentado, fumando sem parar, apesar do calor doentio ?
Tornará ao mar, como outrora em noites de neblina e suor ? Voltará a pegar nas redes fartas, pesadas do peixe que esbraceja na agonia ? Remará de novo na lista de Sol que conduz ao céu ? Pensamentos de velho !…Em que pensará ?
- Tóino, sabes em que penso ?!
Maravilha !…Esperou, esperou ouvindo as ondas bater, lentas, na praia e aspirando o odor do tabaco…
-Não, avô !
-Em…Deus !…
E o garoto abriu a boca, espantado.
A briga
Dois homens brigaram na taberna da aldeia !…Houve mesas voltadas, copos partidos e gritos histéricos.
À tarde, as velhas falavam.
-É um malandro ! Bater na mulher !
E outra acenando com acabeça :
-É um malandro…
Um eco velho a uma frase velha.
E o malandro chorava, de raiva e dor, num beco sombrio, porque o não deixam viver a sua vida !…
O miúdo vibra. Anseia por ser homem para poder lutar, pregar socos rijos no outro, num outro qualquer, desde que possa bater forte…
E conta, exaltado, inventando pormenores que nunca existiram :
-Se visses…se visses, avô !
O avô, desalentado, abana pensativo a cabeça…
Deslumbramento
Espreguiçou o corpo nu no banco duro de madeira e olhou o céu !…O azul, de tão azul, fez-lhe doer os olhos ensonados. Era transparente e escuro, enchendo tudo, os olhos, os ouvidos, os próprios pensamentos e o mar…Sentiu-se estranhamento cansado e cerrou as pálpebras.
O corpo, de um castanho dourado e infantil, esticado na preguiça, estava fresco e molhado. A água aflorava em gotas cheias e prestes a rebentar…E, salgada e livre, batia na madeira, sempre do mesmo modo.
Entreabre os olhos !
De novo um campo azulado…o deslumbramento, o receio. Até onde vai o céu ?!…Até onde ? Uma mão apoiada, o corpo meio erguido, espreita o mundo que conhece nas rochas, no mar, nas conchas e sente-se calmo.
Não tem coragem de encarar de novo o azul transparente mas sente-o, apalpa-o, suporta-o…
E no fundo, bem no fundo, do seu corpo castanho de pescador, adora-o !
A teia
As pálpebras pesaram-lhe dolorosamente…Era a madrugada ! A boca espreguiçou-se largamente, num bocejar mudo. Depois…mais nada. O sono fora-se e sentiu-se só.
Os olhos humidos espreitaram à janela da mnhã. Fios leves e emaranhados, gotas saturadas e fortes, em intervalos docemente anelantes…E os fios a tremerem e, no fundo, tremendo também, uma linha a definir-se. Sombras, sombras nocturnas de pesadelo e fantasia, recortes incertos em linhas frágeis de medo no fundo do seu olhar…
Cerrou os olhos.
Ao reabri-los, acariciou o horizonte com o olhar calmo e lúcido, completamente desperto. Curvava-se, simplesmente, ao ritmo das malhas largas onde, ensonado, se abrigava o orvalho, lá fora…
Na cama, sente a alegria súbita e excitante, de ser o único, o único, pois, no Mundo, a ter espiado, através de uma teia de aranha, tosca e orvalhada, a noite, entre o mar e o céu, a negociar a manhã.
E dando uma volta brusca na cama, ainda mais só se sentiu…
Aqueles dedos sujos…
Os dedos sujos e enrugados transbordavam das botas rotas…Na fenda de uma unha, dormia uma mosca. Aqueles dedos atraíam-no. Olhou os seus pés…Insignificantes, queimados, apareciam, a medo, da rudeza total, uns dedos pequenos e ariscos…Os outros, tinham grandes bolas endurecidas que lhes davam formas engraçadas. Estavam como mortos, imóveis, no sol fraco do anoitecer. Tão imóveis como a mosca…Sentiu inveja daqueles dedos que não cabiam nas botas. Sentiu inveja daquela mosca pequena que descobrira aquela fenda fresquinha entre dois calos rijos e descaradamente negros de pó.
Quis ter uns pés assim.
De novo olhou para os seus, irrequietos e lisos, terrivelmente lisos e, de súbito, furioso, fez uma cova na areia e meteu-os lá dentro…
As formigas
Os lábios, docemente vincados no rosto queimado, moveram-se pensativos. Nem um murmúrio.
-Que viste hoje, Tóino ?
Como adivinhou ?!…
-Vi as formigas, avô !
O rosto do velho iluminou-se.
-E que te disseram ?
Face fechada, bem apoiada nas mãos pequenas, ficou-se pensando. Que lhe tinham dito elas ?…Passavam em fila, pontinhos negros de orgulho. Votavam-no ao desprezo…Caminhavam sós e, embora se falassem muitas vezes, sós ficavam. Pareciam-se, era isso…pareciam-se com eles, sempre sós, os dois. Vinham outros pescadores, vinham mulheres da aldeia, vinham garotos amigos, vinham e tornavam a partir e a solidão ficava. O avô e ele…ele e o avô…A sua expressão foi-se alterando, segundo os pensamentos, e foi com uma facezita entristecida que respondeu em voz branda e tímida :
-Disseram-me …como nós somos parecidos com elas.
O sorriso morreu nos lábios finos, sem côr, e um murmúrio se ouviu à mistura com o odôr que provinha do cachimbo do velho.
-É assim, Tóino, não te mentiram. Somos formigas…
E o avô chorou.
Dois mais dois…
2 + 2 = 4 – repetia ela no rectângulo negro e macio do quadro.
Repetia.
Vai haver temporal, dissera o avô...E o temporal traz vento assobiando nas areias em louca debandada, ondas ruidosas e tristes atirando-se, magoando-se, nas rochas aguçadas, chuva pingando no tecto da cabana e um frio mole e viscoso sob os cobertores escassos...traz o enteiriçar dos membros pequenos e franzinos junto à lareira inútil!
E o velho não conseguirá encher o cachimbo da noite. Ficarão ambos calados, meio encolhidos nas mantas sobre os ombros, olhando o lume. Haverá trovoada?...Haverá?
2 + 2 = 4, repetia ela. E o garoto, de olhos tristes pousados no giz, interroga-se.
- Haverá temporal?
Temporal
Acontecera!...O temporal desabara. A cabana estremecia em cada trovão, em cada relâmpago, ardia em cada rajada fria e seca.
À lareira o avô meditava, meditava na vida e na morte...É velho! As achas estalavam, franzinas, no meio da borrasca. Ao vento e a elas juntavam-se gritos e rumores do mundo selvagem lá de fora. Era o temporal dos sons....dos sons do próprio sangue...dos sons do medo na alma do rapaz...
Deitado na enxerga e no corpo, tapava a cabeça com a manta e soluçava baixinho, de mansinho, embora a garganta lhe doesse e as lágrimas magoassem ao saltar dos cantos irritados dos olhos. No fundo do seu choro envergonhado e sentido transparece a saudade! E recorda aquela outra noite de borrasca...
Um soluço mais forte sobressalta o avô! Mas como é que não dera ainda...E já uma mão tépida corre para a testa suada e uma voz doce sobe acima de todos os sons do mundo lá de fora e do próprio mundo das suas almas para sussurrar:
-Se ele está no Céu, Tóino!...
Os soluços abrandam. O garoto olha-o.
-Numa estrela, avô?
Com um sorriso:
-Numa estrela, sim.
De olhos no tecto o miúdo vê. Vê o pai tisnado e duro, levando-o às cavalitas para uma estrela, como o avô diz, numa noite de temporal...
E este torna, sorrindo, à lareira e à meditação! É que o neto adormeceu com estrelas no olhar...
As luzes do povoado...
Nas luzes do povoado tremem vestigios, presságios!
Uma aqui, outra, pairam vidas...
Ao longe, nas bandas do mar, uma luz diferente, arisca e hesitante...o farol. E um barquito qoe passa. É louco!
O mar não se vê, pressente-se, na brisa fresca que esbraceja no arvoredo, no negrume que começa, súbito, no fim das luzes. A praia é lá, em baixo, na concha dos rochedos, em torno, e ouve-se o ruido surdo da revolta em espuma...lá!
Os barcos que partiram numa esteira dourada regressam lentos na escuridão sem luar.
Cadenciado, embalador, é o rumor do homem do mar....
Os olhos cerram-se, tontos, no ritmo dos remos longíquos.
Numa luz solitária, bem junto ao peixe e às conchas, um garoto adormece.
O pescador retesa os braços com mais força...e mais...
Nas luzes do povoado, tremem destinos, presságios!
Fantoches...
-Don Robertos – exclamou um “snob” que tomava, vermelhusco, banhos de sol.
-Fantoches – exclamava a petizada correndo e tropeçando na areia fina.
Ratos brancos, macios, trepando em escadas estreitas.
Uma tourada, com touro. E a pequenada em ondas de gargalhada, vibrante, acenava, vivia nos bonecos de pau.
O velho, trôpego e mal sentado, ria baixinho...só para si! Fazia-lhe lembrar tanta coisa! Tanta! Bonecos e trapos, ratos, uma voz aflautada, tudo o que preenchera a sua vida de catraio. Corria como louco da cabana à praia, para poder espreitar pelas fendas da barraca. E depois, era o riso que lhe estalava no peito, eram os momentos em que tudo esquecia e era criança, era o final humilhante em que fugia para o barco porque não tinha tostões para dar...
Os olhos do velho sorriam muito, mas o sorriso morreu, lentamente, nos lábios engelhados – junto às águas, de costas agressivamente voltadas à alegria de todo o miúdo, Tóino ficara-se olhando o mar revolto, com paixão.
Aquela poça...
Nunca tinha visto tanto sangue! E ali estava uma poça grande, semelhando um borrão de tinta num papel amarrotado. O rubro encanta-o!
À volta há gritos, soam sirenes. O desastre acaba de se dar. Ecoam no ar gemidos abafados, no ar que ele respira.
Mas só a poça o atrai, enorme e escarlate. É aquele liquido que corre nos traços azulados da sua mão aberta? É aquela côr agreste que mata, quando foge, todo um corpo pálido e franzino?
Será o sangue vivo que escorre nele, que ele pressente em ondas de espuma, igual àquela poça escura e quente? Pôs-lhe um pé em cima...é pegajoso!
Um carro que parte, um homem que morre...
E o lago vermelho fascinando um garoto selvagem impede-o de viver o drama. Para ele, a vida é a poça, a vida que já terminou e permanece porque vive em cada um.
Uma mão pousa-lhe, mansamente, no ombro e impele-o para o carreiro.
E o velho murmura:
-Vamos, Tóino...é tarde.
Ao fundo, a poça de sangue parecia ter abrangido o céu inteiro, no cair da tarde.
Escamas em telha.
Mordera o isco!
Era um peixe pequeno e esguio, tão arisco como ele. Dançava na ponta do fio agarrado ao gancho avermelhado...Os olhos abertos pareciam as contas de vidro do terço que as velhas rezavam junto à lareira, nos serões de Inverno. Prateado, em telhas de escamas flexiveis , era um peixe, mais...era o primeiro peixe que pescava. Os lábios estreitaram-se-lhe num sorriso, as mãos ávidas palparam o corpo frágil do peixe raquitico e sentiu que o Mundo era dele. Pescara um peixe!...E como era grande! Quase apostava...
E o sorriso crescia, arrepanhava-lhe as faces morenas, enquanto, nos olhos negros do menino o peixe balouçava, tão grande, na ponta do fio. A garganta doía-lhe.
-Oh! Avô...
Do fio rudimentar, pendia um peixe pequeno e esguio de telhas em prata e sonhos de criança...
O barco de papel
Dobrou ao meio o papel amarrotado e ficou-se olhando a poça de água transparente, nas rochas. No fundo, rente aos limos verdes e viscosos, correm os caranguejos em passos desajeitados de dez patas.
Chega até ele, por entre o nevoeiro quente do Verão, o estertor das vagas, mais além...
Os dedos ágeis tornam a dobrar, agora com mais vigor.
O avô, mole do calor da tarde, observa-o.
E o miúdo torna a dobrar, olhando a água parada e clara onde escorregam os caranguejos, ouvindo cada vez mais longe os lamentos esfacelados do oceano...
O velho ergue-se levemente. Mas que diabo?!...
O garoto parou. Curvou-se todo para as rochas e ficou quieto, tão quieto.
-Aquele catraio...
O garoto não o pressente. Espreita-o.
Nas águas do pequeno lago, molemente arrastado pela brisa, voga, destemido, um barquito de papel, um papel velho e esfarrapado como o próprio Tempo.
E, pela primeira vez ele viu o neto a brincar...
O Mestre!
Quando o barco corta a espuma, há terror nas ondas esquivas, laivadas de medo, aqui, além, em toda a parte...
-Eh! Tóino, em que cismas, catraio?
O garoto ama o Mestre!...
-Eu?!
E fica-se olhando-o, abismado.
-Tu, sim.
As lágrimas, lá vêm elas!...A manga suja da camisa aos quadrados corre para os olhos negros, para o nariz.
O Mestre!...O Mestre!...
O Mestre sorri!
-Penso...penso...que o mar tem medo de nós. Ora aí está!
Fica à espera, o corpo rígido, a respiração suspensa...Ir-se-á rir o Mestre?!
Não! Não riu.
Com um brilho estranho nos olhos verdes, duros, ele olha a espuma fugitiva que o barco corta e murmura:
-E tem, Tóino, ele tem medo de nós...
O peito parece querer estalar-lhe de orgulho.
Tudo enegreceu, de súbito!...
As pupilas pequenas e volúveis tremeram, enovelaram-se.
O garoto esfregou os olhos, encantado. Todo o vale, aninhado e morno, se enrosca na noite, na escuridão que nasce da terra, do mar, dos homens. O vento brando traz murmúrios das rochas, dos peixes, dos que não existem na luz do dia.
O velho chega-se junto a ele. Os olhos azuis...porque serão tão azuis?...semicerram-se, e, do peito, ainda robusto, sai um gemido.
O miúdo vira-se, com o espanto nos olhos piscos, na testa em rugas finas e cremadas.
Irrita-se...
-Avô?
Porque gemeu ele?!...
Torna a mergulhar os olhos no vale palpitante de vida, selvagem.
E, naquele momento, não amou o velho!
Luar!
...Uma forma exótica de luar na curva doce do rio!
E um barco a vogar nas sombras, nos recantos perdidos sob as árvores!
-Avô, porque existem as sombras? Porque não há só luar nas águas do rio?
Luar?!...
Aquela mancha branca de palavras e silêncios, aquela réstea implacável nas noites de morte? É isso!...Quando ele morrera, havia luar. E mais tarde, na praia, o seu rosto torcido brilhara à sua frente trazido pelo mar, roído, esfacelado, com amargo sabor a maresia.
Chorara como só um velho sabe chorar em gemidos fundos e loucos em soluços agrestes.
Chorara!
Ah! Aquela claridade pálida, aquela fibra sem côr e sem vida, marcando-lhe os traços roídos do rosto.
...O luar!
-Tóino! - gritou.
E vibrava o desespero da recordação na voz dorida...
-Avô! – murmurou assustado, o rostozinho erguido à luz baça do luar...
-Tóino, sai daí...- e, mansamente – Tóino, porque existe o luar? Porque não há só sombras nas águas do rio?!...
Cachos de uvas....
Um cacho de uvas, grandes, cheias. Uvas negras de tons roxos e brejeiros...uvas acres, ébrias...
Estendeu a mão, o coração em loucos saltos no peito. E se ele fugisse, saltando, um dia? Que gargalhada estranha na solidão do lugar, nos reflexos do sol, nas uvas selvagens! Que alegria mole, que loucura negra nos cachos pesados, nas latadas doridas, cheias...cheias.
Na sombra esquecida de um velho moinho comem-se bem uvas bravas! E o vinho de sabor ingénuo escorre dos cantos disformes da boca fechada. Escorre, palpita, nas carnes, no sangue. Cresce o fresco roxo de leves tonturas no corpo estirado. Os olhos cerram-se, caiem as pálpebras sem querer.
O tempo...
Quando acordou era já noite e das uvas pendentes nos cachos ébrios...além, só sombras restavam.
O velho dos piões
-Quando fores à aldeia...
Subiu a escada, estreita e escura, de cheiro a bafio e degraus de madeira, mal seguros.
Que engraçado, as pessoas viverem assim, empoleiradas nas casas. Como as galinhas!
Bateu à porta com os dedos em curvas de força. Abanou e os gonzos rangeram. Passos arrastados e uma faixa de luz vinda de uma janela tosca no cimo da parede.
-Quando fores à aldeia...
Lembrava-se dele! Velho, mais velho ainda que o avô. Carcomido, engelhado, todo feito de rugas e peles, tinha os olhos mais lindos que ele já vira! Verdes, verdes como os do Mestre, é verdade, e fundos como o medo e a solidão!...Também fumava um cachimbo sem côr e perfumado como o avô e tinha fechada, num saco de trapos sujo e triste, a alegria da rapaziada – os piões. Talvez que ele...
A porta escancarou-se e os seus olhos penetraram no olhar esverdeado do velho. Sorriu. Uma mão secular, de veias túrgidas e finas, revolveu-lhe o cabelo encaracolado e um fio de voz saudou:
- Viva, rapaz...
A porta fechou-se de novo.
Copo partido
Olhava o copo partido com olhar estranho. Os olhos nem pareciam olhos...Talvez cavernas batidas das ondas, no fundo das ravinas. A boca torcida, apertava um cigarro, num jeito de homem. Que pensaria o avô se...Tinha um vestido vermelho onde a carne se via e os braços à mostra, brancos e rosados. As mãos tremiam. Porquê?!..
O copo estava partido.
A cinza caía-lhe, da ponta latente do cigarro.
Lentamente, os dedos de unhas brilhantes amassaram-na na toalha branca, espalmaram-na nos nervos, no sangue, no cérebro...e ela chorou. Caíram-lhe lágrimas dos olhos doridos, semelhando abismos solitários num mar desconhecido. Caíram e rolaram por sobre a carne rosada, a cinza e a toalha...tão branca.
E o copo estava partido.
O garoto sofreu. Abriu a porta, brusco, não olhou mais as lágrimas escorrendo silenciosas e amargas. E abrindo os olhos à lareira da cabana, ao avô espantado, murmurou:
-Eu vi-a,avô!...Ela chorou!...
Tic...Tac!
Tic...tac!...Tic...tac!
É a vida que se escoa no relógio da torre...Campanário do mar, do sabor do sal e do peixe, do homem...das ondas! Conta destinos, ilusões. Pulsa nele o rosto sombrio do garoto que corre, corre. Para onde?
Tic...tac! Tic...tac!
A viúva é doida, dizem. É louca. Grita ao anoitecer do cimo da falésia. E o grito ecoa no ritmo do relógio...lá, na torre.
Dizem que o mar lhe levou o tino. Não, não foi o mar. Foi aquele...além, no andar lento dos ponteiros. Ele...
Tic...tac! Tic...tac!
Não pára. É a vida.
Ecoam gritos no mar, ao longe. Cabeças que se erguem, mãos que se estendem, lenços que voam. E os olhos, erguidos, auscultam o pulsar calmo e cruel, lá no cimo.
É a hora da partida...
É a hora do regresso...
Tic...tac! Tic...tac!
O relógio do destino é que os traz e é que os leva e é o mar que decide, no seu bater sem pressa, ritmado, parecendo dizer – tic...tac...tic...tac...
Caracóis...bolos...
Balouçava, molemente, no ramo vergado! Braços e pernas entrelaçados nas rugas frescas e ásperas da árvore.
Cabeça caída, ao desafio, via um laivo de água escorrer apressado, aos borbotões, de uma fenda estreita e enfezada. Os seus olhos esquecidos mergulhavam na água gelada e iam murmurando, em prece dolente...
- Quando eu fôr para a faina há-de haver festa rija nesse dia! O avô comprará caracóis, laranjadas e bolos de creme, mesmo...
...E comerão à noitinha quando o mar o trouxer e contarão histórias fantásticas nunca vividas e...
O rapazio corre à desfilada junto dele.
- Anda daí, Tóino...Vamos atirar um papagaio no vale...
Abana a cabeça! Sim ou não? Os outros já partem, chamando, gritando nos cantos de sol onde dormitam garotos semi-nus.
Tóino deixa cair, preguiçoso, os pés descalços que batem no chão seco com um leve tremor de receio. Estica os braços, o peito, a alma e sente-se meio adormecido no torpor das sombras e das formas.
A água borbulha-lhe aos ouvidos...Zumbe! Água em cascata aos seus pés.
Joelhos em terra, mergulha os lábios gretados na insipidez deliciosa da fonte tosca. Sorve, gulosamente, sôfregamente.
E recomeça, à mistura com a água que lhe adoça os lábios, em lenga-lenga monótona e íntima que lhe enche a alma:
-Quando eu fôr para a faina...
No vale, em gritos alegres, a garotada atira um papagaio.
.
O outro olhou-o...
Tinha um fato “chique” como os “tipos” da cidade. Um casaco, de pele na gola, umas botas castanhas e um boné de pala.
Sentado de banda no caixote das bolachas, o garoto inveja-o, detesta-o. Sente a camisa grosseira de grandes quadrados na fazenda barata, sente os pés nus, marcados do pó dos caminhos, sente o cabelo revolto no vento da tarde, em madeixas infantis.
O outro olhou-o.
O peito enche-se-lhe de uma forma estranha, os punhos cerram-se contra as tábuas e o ódio vinca-lhe as faces.
-Porque olhas? Lembra-te, eu tenho o mar!...
E erguendo a cabeça, onde tudo se confunde e o ódio cega, pôs-se a assobiar...
Uma nuvem
Agachados na colina que sobranceia a vila, os garotos jogavam ao pião. Pequenino, reboludo, burguês pacato, o pião presta-se ao jogo e gira, gira sorrindo nas bochechas gordas de pau.
Algaraviada no monte. Joga-se o pião do Chico!
A linha enrosca-se meigamente no pescoço frágil...Um puxão e os olhos girando, às voltas. Olhos verdes, olhos negros...E as voltas iguais no arco-íris dos olhares.
Lá em baixo, nas casas, ecoam três vezes nos abismos, as gargalhadas, os gritos, da garotada do pião.
O rodopio morreu. A corda mole, sem forma, palpita. A madeira freme. Os dedos sujos precipitam-se.
-Tóino, és tu...
O silêncio perpassou, lentamente estranho. Uma abelha zumbiu forte.
- Deixa-o, não está cá.
E o Tóino, de olhos perdidos no espaço, observa quão bizarra é aquela nuvem solitária no céu tão azul...
Apelo
Costumava parar no caminho de terra a observar as gentes no café.Tão diferentes! Comiam bolos, bebiam copos rosados ou escuros, dourados de espuma. E as crianças corriam a apanhar as tampas no chão e riam. Pulavam gelados de cores pelo ar em revoadas frescas de anseios até mãos pequenas e estendidas. Tocava a música bem alto e namorava-se além... aqui...
Ele olhava, olhava e a boca abria-se-lhe a tudo aquilo, tão estranho...
E se ele...Aproximava-se, via mais de perto e mais...De súbito, soava-lhe aos ouvidos o grito do barco ao lançar as redes na noite estrelada, revia as dunas sombrias e rudes, as dunas frágeis do seu sonho e, voltando costas a tudo corria, voava como louco. Menino doido de fantasia e receio. Ao contacto mole da praia, atirava-se, meio-morto, para o chão escaldante e, abrindo os braços, bem esticados, corpo sujo sentindo a crueza do sol a queimá-lo, a apertá-lo com força, soltava um longo suspiro e era feliz!
A florista
-Aquele ramo acolá...Quanto é?
E a florista, bem disposta não se sabe porquê, responde sorridente...
-Dez euros!
Do lado de fora, com o nariz bem pegado ao vidro fresco da montra, um rosto pequeno e oval, de grandes olhos negros e boca bem modelada fita um cesto garrido de onde escorrem rosas vermelhas e brancas...O garoto leva a mão às calças já gastas e tira um velho porta-moedas descosido e sem côr. Conta!...E torna a colar o rosto desalentado de encontro o ramo, do outro lado do vidro.
Nos olhos brilhantes dançam as lágrimas. Um velho calado e manso, dá-lhe a mão e chama-o.
-Tóino!...
O miúdo volta-se, olha ainda para trás.
E a florista, hoje bem disposta não se sabe porquê, pega na rosa mais rubra do ramo e...
-Tóino!...
Nos olhos da criança, de cabeça virada, brilha um sorriso por entre as lágrimas vidradas.
Ao longe, no caminho que leva à praia, vão um velho e um menino rindo tolamente para uma rosa vermelha!...
Chovera!...
Era de noite e chovera. Os pés, descalços, batiam na água da lama - chap!...chap!...
De cabeça ao de leve inclinada, imita com o cérebro – chap!...chap!...e com o sangue – chap!...chap!...e com a lingua – chap!...chap!...
As luzes mortas dos candeeiros, meio-adormecidos, ensopam as ruas brilhantes e molhadas numa mancha morna e sensaborona...
E o sangue - chap!...chap!...
Um carro passa, louco na noite louca de chuva e sons.
E o cérebro – chap!...chap!...
O avô espera-o.
A malga espera-o.
A lareira espera-o.
Todo o mundo o espera...
E a lingua – chap!...chap!...
Chovera...e tudo, na chuva, se resume a um eco constante na gente que passa – chap!...chap!...
Na cabana tosca o velho, assustado e medroso, espera, espera, enquanto lá fora no vão de pedra, nu, os pingos caiem e escorrem – chap!...chap!...
Os sinos!...
Repicaram!...Tão ao longe, mal se reconhecem os sinos da aldeia.
Atirado ao acaso na areia louca, olha-a, olha-a como no primeiro dia, à procura!
E o sol, batendo em mansas tiras de luz, forma sombras ao pé dele. Bem coladas! Uma teia pequena, frágil, em fios curtos e flexiveis de luz fazem-no sentir cheio, estranahmente cheio...
Volta o rosto. Tem medo.
Em gestos brandos de preguiça, põe-se de gatas, levanta-se. Na cabana sai fumo em longos rolos de satisfação. Desaparece, volta e apaga-se, brandamente, onde o olhar já não vê. Sonha com o avô sentado na cadeira de balouço, onde já o pai dele se sentava, com o almoço frugal, tão íntimo, que nasce no fumo que se escoa do tunel apertado da chaminé, com o passeio à vila pelo braço rijo do avô...
O orgulho...
De novo o coração lhe pula, alegremente, na calma do dia que o espera, igual aos outros.
Repicaram!...E, desta vez, pareciam bater mesmo no fundo do peito tisnado do garoto!
A miúda dos bolos
Era a miúda dos bolos!
Boca aberta, molhada, onde assomavam dois dentes branquinhos, os olhos quase fechados, cheios de lágrimas, os punhos cerrados...tudo nela era choro.
É uma chorona, a miúda dos bolos...
-Olha, gostas de conchas?
Os olhos abriram umas gretinhas marotas e espreitaram as cores, as formas rosadas do búzio.
Estendeu a mão, cheia de pequenas covas.
- Não, só se parares de chorar.
Franziu a testa e, lentamente, os soluços abrandaram mais e os olhos apareceram todos, negros e vivos tais como...é isso, tais como os olhos do Macambúzio.
O garoto esperou.
A criança olhou-o de lado, parou de chorar e os seus dedos puseram-se a brincar com as tranças pequenas e atrevidas. Era a calma perfeita.
Então o garoto deu-lhe a concha e sorriu.
Mas...o beicinho nasceu de novo, cresceu nos lábios vermelhos e, mais irritado ainda, o choro voltou. A concha, essa estava bem apertada na mão, cheia de covas.
- Manhosa!...Manhosa!...
Ficou-se, humilhado, a vê-la, no seu passo miúdo, a caminho de casa. Afinal, vendo bem - e de novo sorriu – ele devia ter desconfiado. Pois se ela tinha, tal e qual, os olhos do Macambúzio!...
Regresso
...E a corda rolando nos passos dos homens...
Músculos tensos!...E a corda a rolar!...
Arfar sufocado, gemido longo como longo é o mar que se alcança. Está quente a tarde, a areia escalda! O suor escorre, mergulha nas golas sujas, nos corpos de cheiro activo que enjoa...Cheiro do pescador e da corda, cheiro das redes a abarrotar de peixe saltando em pilhas de vida a esvair-se, cheiro da vida que o peixe mantém. Esmola!
E os músculos doridos e os dedos brancos de esforço enquanto a corda torce...
Um garoto, ritmado e esguio, enrola o fim da corda que rola nos passos dos homens.
- Eh! Tóino, mais força homem.
Pernas fincadas, ele tenta, tenta aprender o preço da vida que o peixe traz, tenta encher-se do cheiro que nasce, na volta dos barcos, ao puxar das redes, tenta sentir nos braços, em fogo, promessas, sonhos...
E enquanto a corda, rolando, rolando, atinge o fim, o garoto de nervos em arco e cabeça a estalar, sente-se velho...
Voarás?...
Bem marcados, os passos incertos, no caminho. Caminho longo, quase sem fim...
- Avô, avô, porque voam os pássaros?
Perguntas!...
- Voam, sim, eles voam! Mas, porque voarão...lá, nas nuvens, no céu?
- Se eu abrir os braços, avô, também vôo?
Voará?...Ah! Garoto, voarás?
O pó mexe-se, inquieto, ao contacto da brisa do entardecer. O caminho, infinito, estende-se, estende-se...Brandamente.
- Sim Tóino, voas, mas é preciso que olhes sempre para cima, sempre...sempre...
- Mentira?
Uma guinada, uma carreira louca e uma figura pequena e delgada alcançando o fim do infinito, de braços abertos e olhos no céu...voando?
Em torno dela, esvoaça, meigamente a medo, o pó fino do caminho.
O combóio
O combóio atravessa a planicie. Fumo negro, espesso, amarelado e branco! Fumo quente, escaldante nas manhãs, nas tardes, talvez nas noites!
No monte é o silêncio e, ao longe, o pressentimento. Momentos, vidas, e escuta-se o apito no eco dos montes...A máquina gira que gira em voltas cercadas de árvores...E o fumo que dança, gira também!
O apito nasce, morre em soluços mimados, apontando-o no fundo do vale!
A cancela abre-se, lá em baixo. Garotos correm, a vê-lo de perto. E perde o interesse. Parado, enorme, pesado, não tem piada. Depois...
-Eh! Tóino, lá vai ele outra vez.
Dedos espetados, olhos perdidos, atiram ao ar gritos, risadas.
E o combóio pequeno, leve, quase fumo, corre de novo às voltas girando, cercado de árvores...O apito canta seu eco preferido nos montes em volta até que o silêncio paira.
O silêncio!...
Debandada louca de corridas e gargalhadas.
É o entardecer e, lá, onde já se não ouve, o combóio apita numa nuvem côr-de-rosa!...
A sombra
Por entre os pinheiros, agudos e sombrios, nasce o odor a rosmaninho. E o sol cai em dobras finas, regatos secos do campo.
Sob uma árvore grande está a sombra e a sombra não pensa! Pensa o velho por ela...A sombra não recorda, recorda o velho...A sombra nem existe! Existirá o velho? O velho que mergulhou na criancice, na tarde de sol?
Brisa quente com cheiro a ervas rasteiras e a saudade.
Debaixo da árvore...
...Belas amoras comidas ao desafio até fartar, carreiras loucas de cansaço e abandono, banhos frios, em frias ribeiras, sonhos! O mar...O mar lá ao fundo, bem longe dos pinheiros e do sol e cheio, tão cheio, de sombras que não pensam, não recordam, não existem...Infância de borboletas e conchas, de pó e de rochas. Fantasia do passado em ondas de recordação...
Debaixo da mesma árvore, sonha um menino.
Cheiro a clorofórmio
Cheira a clorofórmio e a doenças. As paredes brancas enjoam, fazem rodopiar as cadeiras e os bancos, as pessoas e os pensamentos...
Alguém lhe palpa a testa com rudeza. As paredes têm remendos como as velas dos barcos! E tremem, no relevo das ondas e do peixe esquivo, nas barbatanas de metal da luz do dia, mansamente...Dançam no cheiro acre, nas batas brancas em frente, na mão que não é mão, na febre e no desejo.
Porque terá a garganta um sabor amargo, porque pesará o peito no corpo, porque queimarão os olhos meio-cerrados?
- Avô!...Avô!...- a garganta vibra em dores agudas.
Uma voz doce de mulher:
- O Avô vem já, querido.
Querido! Tal como ela dizia! A mãe boia-lhe na retina, na memória, no queimado ardor dos olhos, na dor no peito...
- Avô!...- e a garganta dói menos.
No corredor onde dançam as paredes e o cheiro a clorofórmio, um velho, todo curvado, chora baixinho como uma criança.
Fogo!
Fogo! Há fogo no monte. Gente que corre, corações que doiem, gritos abafados nos xailes compridos e negros!...
Tóino ergue-se, na cama rija, com a cabeça a escaldar de anseio e corre também.
Labaredas em debandada no cimo das árvores, do verde prado, do monte...Chamas vermelhas, negras de fumo e receio, no nascer do dia. Um laivo de fogo desce o atalho. Apressa-se a gente a apagá-lo. Há uma casa perto...Há vidas ao pé do lume, ateado no cabeço....Há quentes lufadas que sopram no vale e esquentam os corpos que esperam.
E eles... lá, no mar!...
Remam que remam no fresco da brisa, sonham que sonham na aldeia distante, na aldeia esquentada do vale esquecido junto a um monte que arde, cansado...
No fundo da alma, o garoto dói-se daquele grande bocado de terra suicida! sente dó, angústia! E lentamente volta para a cama arrastando nos passos o peso do fogo e do monte!...
Só rochas...abismos
Entrava o sol a jorros naquela janela. Sol fragmentado por quatro traves rústicas, de boas intenções, coado pelo vidro manchado de pó e cores.
Em frente à janela, só rochas e abismos e, ao fundo, bem ao fundo, o mar com o sol a entrar nele como entra na aldeia, no vale, nos olhos enormes e cansados dos pescadores...
Ali, junto dela, vendo a luz filtrada, vinda não sabe de onde, o garoto fica horas.
“...e à berma da estrada havia uma árvore vermelha, de folhas pálidas, de folhas caídas raspando no chão, de folhas sulcando nos pensamentos turvos do fim de Outono! Leves, brisa ténue do sol-pôr, erguiam turbilhões no céu...vinha o arco-íris. E vinha o doce rumor da escuridão, no canto das folhas caindo, de novo, na árvore vermelha da berma da estrada dos seus sonhos...”
- É noite, rapaz. Chega-te à lareira que está frio...anda.
- Sim, avô.
...Em frente à janela só rochas e abismos e, ao fundo, bem ao fundo, a noite!...
Tóino
...E um dia o garoto foi para o mar!
O velho pescador, de cachimbo apagado, viu-o partir...viu-o voltar...
Nas rochas entumescidas, espraiadas de azul, ressoou o grito dos remos e ele fugiu para onde não há mar, nem peixe, nem homens, e se pode chorar...
- Tóino – traz-lhe o vento.
- Tóino – arrastam as árvores.
- Tóino – ecoa nos abismos!
Ah! Velho tonto...Apaga as lágrimas, compõe um sorriso. Na cabana esperam-te bolos, caracóis e um menino de olhos negros e anseios.
...E um dia o garoto foi para o mar! Voltou homem...onde os sonhos já não cabem!...


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