À minha porta…
Sentava-me pela
manhã,
À soleira da
minha porta
E via passar um
cortejo de gente,
Para a feira da
vila.
Via de tudo.
Sempre diferente.
Vi o sacristão
pela madrugada,
Correr para as
cordas do sino
Dar corda ao
relógio
E tocar as
Trindades.
E a mulherzinha sadia,
De canasta à
cabeça,
Vergada de peso,
Com os pães da
manhã.
E o lavrador vermilhão,
De bigode retorcido,
Colete de couro,
Chapéu na cabeça,
Que vinha sozinho
Dos caminhos
campestres
De vara na mão,
Para afugentar os
ladrões.
E aquelas
mulheres
De açafate de
vime,
Sobre um lenço
vermelho,
E uma rodilha de
trapos,
Cheios de frangos,
Rebentos,
Com cristas
vermelhas…
Para vender!...
E as vacas
leiteiras
De tetas
pendentes,
Cheias de leite,
Que iam vender no
mercado
Por uma côdea de
pão!...
E os carros de
bois
Carregadinhos de
lenha,
Prontinha a
queimar,
Nas lareiras dos
pobres,
Para o caldo das
couves,
Ou no salão dos
fidalgos,
Para aquecer os
serões!...
E a mulher do
moleiro,
Com um farinha à
cabeça,
Num sacão de
estopa,
Vergada para o
chão!...
E as moças dos
campos,
De blusas
bordadas,
Arrecadas de
oiro,
Luzindo ao sol,
Com cestas,
A abarrotar de
flores
Para vender no
mercado!...
E o nédio abade,
Vestido de preto,
Um largo chapéu,
Por causa do sol,
Uma pasta de
couro,
Debaixo do braço,
Seguindo a pé,
P’ró registo
civil,
Dos vivos e
mortos,
Que a semana
levou!...
São tantas
lembranças
Que vão na cabeça…
Quando miúdo,
De corpo a
crescer
Com os olhos
abertos,
Me punha à porta,
A vê-los passar
A caminho da
feira!...
Ouvindo Lang
Lang, Sonho de Schuman
Mafra, 25 de
Março de 2013
8h12m
Joaquim Luís M.
Mendes Gomes
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