Monday, March 25, 2013


À minha porta…

 

Sentava-me pela manhã,

À soleira da minha porta

E via passar um cortejo de gente,

Para a feira da vila.

 

Via de tudo.

Sempre diferente.

 

Vi o sacristão pela madrugada,

Correr para as cordas do sino

Dar corda ao relógio

E tocar as Trindades.

 

E a mulherzinha sadia,

De canasta à cabeça,

Vergada de peso,

Com os pães da manhã.

 

E o lavrador  vermilhão,

De bigode retorcido,

Colete de couro,

Chapéu na cabeça,

Que vinha sozinho

Dos caminhos campestres

De vara na mão,

Para afugentar os ladrões.

 

E aquelas mulheres

De açafate de vime,

Sobre um lenço vermelho,

E uma rodilha de trapos,

Cheios de frangos,

Rebentos,

Com cristas vermelhas…

Para vender!...

 

E as vacas leiteiras

De tetas pendentes,

Cheias de leite,

Que iam vender no mercado

Por uma côdea de pão!...

 

E os carros de bois

Carregadinhos de lenha,

Prontinha a queimar,

Nas lareiras dos pobres,

Para o caldo das couves,

Ou no salão dos fidalgos,

Para aquecer os serões!...

 

E a mulher do moleiro,

Com um farinha à cabeça,

Num sacão de estopa,

Vergada para o chão!...

 

E as moças dos campos,

De blusas bordadas,

Arrecadas de oiro,

Luzindo ao sol,

Com cestas,

A abarrotar de flores

Para vender no mercado!...

 

E o nédio abade,

Vestido de preto,

Um largo chapéu,

Por causa do sol,

Uma pasta de couro,

Debaixo do braço,

Seguindo a pé,

P’ró registo civil,

Dos vivos e mortos,

Que a semana levou!...

 

São tantas lembranças

Que vão na cabeça…

Quando miúdo,

De corpo a crescer

Com os olhos abertos,

Me punha à porta,

A vê-los passar

A caminho da feira!...

 

Ouvindo Lang Lang, Sonho de Schuman

 

Mafra, 25 de Março de 2013

8h12m

 

Joaquim Luís M. Mendes Gomes

 

 

 

 

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