Saturday, March 24, 2007

AS LISTAS NEGRAS


Há tantas listas
neste mundo!...

Listas brancas,
listas negras,
sem matiz.

Uma só
de infeliz
lembrança,
já faltava
a este País...

Há a Lista da Lotaria

Sempre branca.
Como a morte.
Em cada folha,
até ao fundo,
prós avessos
da boa sorte,
- a maioria...

As mais das vezes,
ó ironia,
vai p'ra quem
sem sofrer,
sem merecer,
já é rei
de meio mundo...

Vem depois
a lista negra
do desemprego:


De quem,
um dia,
nasceu pobre,
é honesto
e sem padrinho...
de quem pecou,
uma vez só,
desamparado
e sem perdão...

de quem
muito vale,
e com muita força,
à sua custa,
faz sombra a quem,
sem graça,
tudo pode...

A lista dos hospitais

Como é longa,
dolorosa,
só de velhos,
desamparados,
sem fortuna
ou pé de meia,
na cidade cega,
esquecida vila,
remota aldeia...
Ó triste sina!

A lista da Justiça

São tantos,
aos milhares,
os amigos da violência,
da maldade
e do alheio.
São demais...

Não chegam os juizes,
tanta desordem,
tanto desleixo,
pelos nossos tribunais...

Tanta sede de justiça,
já morreram as testemunhas,
tanta noite sem dormir,
já esqueceram suas queixas...
Infelizes!...

A Lista dos Dependentes

Muito tenros,
inocentes,
crescidos
ao relento,
são famintos
do pão da vida
que lhe juraram ao nascer...

Na asfixia
do amor fraterno,
que lhe negam
os egoistas,
os poderosos,
vagueiam,
à deriva,
são farrapos,
pelas encostas,
pelas valetas,
dos casais ventosos,
de toda a parte...

A Lista dos Alienados

São aos milhões...
Que tristeza!...
Todas as camadas sociais.
Com cultura,
sem cultura...
Que medonha
caldeirada!

Há presidentes
há doutores,
serralheiros,
lavradores,
fiscalistas,
banqueiros,
padrecos
professores,
catequistas...

nas bancadas
de tineira,
tardes loucas
de domingo,

no futebol
que engorda
de vil metal,
as bilheteiras...

e as carteiras
dos figurões,
amantizados
com a indústria...
porca...
da política!

Mas neste cortejo,
deletério,
de tanta lista,
e tantas mais,
só faltava esta
ao meu País:

Ali bem perto,
de Belém,
dos Heróis das Descobertas

Na parede nua
dum fortim,
esquecido
que ali havia,
escreveram,
linha a linha,
uma lista longa,
envergonhada,
nomes
mortos,
bem ordenados,
cronológicos...

Que tristeza!
Que miséria!...

Parece a lista
dum cemitério!...

Saibam todos,
ó filhos...
de Portugal!
País de glórias,
muitas,
à beira-mar!

Oiçam todos,
ó maiorais!...

Nós
os nomes vivos,
que, só por sorte,
não estão...
na dita lista,
todos nós,
de cabeça erguida,

com revolta,
gritamos alto,
com coragem:

Vomitamos,
rejeitamos,
firmes,
a vergonha
daquela homenagem!?...

No comments: