Sunday, March 11, 2007

Pedras preciosas...


Esta noite mesmo, tive um sonho. Ainda era miúdo. Dei comigo em calções, sentado na valeta da estrada, ao pé de minha casa. Era verão. Não havia perigo. Os carros que lá passavam, era um, de hora a hora.

Pela tardinha, gostava de brincar ali, sózinho, na valeta da estrada, frente à casa onde nasci.
As valetas eram regos toscos, um de cada lado da estrada. Esta ainda em terra batida com cascalho à mistura.

Depois da chuva do inverno, aqueles regos formavam no verão, uma espécie de ribeira seca. Com folhas mortas, de plátanos e videiras, muito arrumadas, em tapete ou em renda, ao longo das duas margens.

De vez em quando, o leito delas espraiava-se em açudes secos de areia. Muito lavada e fina. Havia sulcos e ravinas muito bem desenhadas em miniaturas caprichosas.

Não havia conchas...eu gostava que houvesse conchas...como as da Póvoa de Varzim. Seria sinal de que havia mar ali ao pé. Como tanto queria.
Por isso, ainda hoje, não posso viver muito longe dele. Muito menos, passar muitos dias sem o ver.

Minha terra ficava longe do mar. Entre montes e serras altas. Com neve branca no inverno. Com muitas árvores. Muitos campos povoados de muitas aves buliçosas.
Não eram sempre as mesmas. Ora umas ora outras, conforme a sua época. Só nós éramos sempre os mesmos.

E havia penedos de granito. Em bolas gigantescas. Espalhadas às claras ou ocultas pelas encostas. De nos deixar de boca aberta.
Volta e meia ouvia-se estrondos ao longe. Tão fortes como a trovoada ou a metralhada duma guerra. De meter medo.

Meu pai diza:
- São os pedreiros nos montes dos Perdidos.

As pedreiras ficam a léguas dali. Meu tio era um deles. Ia para lá todos os dias. Com um jumento carregadinho de picos e martelos.

Eram frequentes os carros de bois, com aqueles eixos grossos, em toros de madeira, a chiarem como cães danados. Tanta e tamanha era a carga sobre o carro. E meu pai dizia:
- Estas pedras vêm lá das pedreiras dos Perdidos.

Eu ouvia-o. Depois, cá com os meus botões, punha-me a decifrar o resto.

Pensava nas casas que eu via erguidas, em fiadas de blocos de pedra habilidosamente encastelados; nos esteios altos, delgados que seguravam as ramadas e bardos de vinho verde, a toda a volta dos campos e quintais; nas colunatas lisinhas e trabalhadas que seguravam os portões das muitas casas apalaçadas.
Enfim, tudo era feito, rijo, para durar. Sempre fora assim.
Por isso é que havia tanta areia fina pelas valetas. Não era dura nem sequer seca a camada que fazia. Podia-se escavá-la com os dedos das mãos, até à terra negra e dura.

Debaixo daquela capa fina, logo apareciam pedacitos, em tamanho variado, matizados e macios. Arredondados, como ovos de passarinho. Eram lindas. Ora baças, reluzentes, em camadinhas tão perfeitas, de várias cores. Como o arco-íris, se lhes batia o sol.

Ainda bem que as pessoas grandes que iam pela estrada, tisnadas do sol, consumidas da vida, passavam indiferentes a tanta riqueza... Só minha. Levava-a avaramente para casa...para o meu saquinho de pedras preciosas...

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