Notas sobre o lançamento do meu livro de poemas- Baladas de
Berlim
Em Lisboa, no dia 2 de Novembro de 2013, pelas 19 horas
Meus caros Amigos
Sinto o dever e o prazer de vos contar como tudo correu,
ontem.
Naturalmente que ficaria muito mais contente se vos tivesse
visto lá. Mas, a vida é exactamente assim.
Quando agendei o dia, preocupei-me com a maior
disponibilidade do dia de Sábado, mas esqueci essa circunstância incontornável
de este Sábado estar inserido nas nossas ricas vivências de recordação dos
nossos...
Apesar de poucos, posso garantir-vos, sem pecar por excesso,
que tudo correu maravilhosamente.
Desloquei-me para o local de forma a chegar um pouco antes.
A sala da Editora fica inserida no edifício e interior do
cinema King em Lisboa. É suficientemente espaçosa, muito acolhedora. Um
ambiente muito digno e apropriado. As paredes, recheadas de estantes com exemplares
das obras recém-editadas por ela. De todos os géneros literários.
Um razoável painel de cadeiras para a assistência. Com a
mesa dos interventores. Um bar, ao fundo, também muito acolhedor.
A sala estava repleta. Porque decorria o lançamento duma
obra. A sensação foi-me muito agradável. Pus-me a ouvir um pouco.
Entretanto, chegou o meu Amigo Professor Luís Graça. O dono
do magnífico blogue sobre a guerra da Guiné- Luís Graça e Camaradas da Guiné-
Apesar de o conhecer há meia dúzia e anos, era a primeira
vez que nos encontrávamos tête-à-tête...ao vivo.
Foi uma grande alegria. Saímos para um patamar e ficamos a
trocar aquelas coisas todas que se guarda há muito com com vontade louca de
partilhar...
Entretanto, foram chegando alguns amigos.
E ficamos à espera pelo fim dos habituais autógrafos da
autora da obra apresentada.
Até que, avancámos nós.
Tenho de avançar já que ontem, vivi um dos dias mais felizes
a munha vida.
Tomamos os nossos lugares. A
A representante da Editora falou da Editora e, a seguir, fui
eu.
Não me arrisquei a falar de improviso...o peso era
muito...Por isso escrevi umas palavras que, sem vos querer maçar aqui vos
deixo.
Depois de registar, como for capaz, a minha vivência do que
se passou.
Ambos os oradores foram magistrais no que disseram , na
forma e substância.
Ambos são homens cultos...
O Professor Luís Graça, catedrático de Sociologia com um
admirável currículo, e ainda em exercício, com toda a simplicidade que lhe é
peculiar, fez uma deliciosa exposição em traços breves mas expressivos, com
rigor exacto, sobre o meu livro e a minha pessoa..que muito me surpreenderam, agradavelmente.
Trouxe ao de cima,
aspectos muito interessantes, como só um
sociólogo pode fazer.
Em traços mágicos, desnudou-me a mim e ao livro, com
exactidão e fundamento, demonstrando saber mais que eu do que ia
dizendo..fiquei maravilhado...
O meu filho...apesar de filho...com o rigor e a
objectividade...que os jesuítas, normalmente têm...arrasou-me!...Completando a
exposição antecedente, com os olhos muito perspicazes, de quem, sem lhe escapar
nada, me conhece, desde o seu berço...Disse
coisas lindas...ficam gravadas no meu coração.
Tenho pena de as não poder partilhar...
E então, aqui fica o que eu li.
Meus
caros amigos
O
meu profundo e sentido obrigado por terem vindo.
Alguns
de vós eu conheço de perto. Por laços de sangue. Por laços de trabalho. E até
da guerra.
E
os demais, através dessa admirável maravilha que é a internet.
Outros
mais, tenho a certeza, aqui quereriam estar. Mas a distância e a força da vida
os impediu.
Passe
a imodéstia. Tenho dois blogues pessoais onde registo o que vou escrevendo.
Espalhados
por todo o mundo. Desde os EU à Rússia, à Alemanha, ao Reino Unido e ao
oriente. Tenho centenas de visitas
registadas, no dia a dia. Também isso me confirma e me regozija.
A
todos presentes eu agradeço. Permitam-me porém, que realce dois deles:
-
Um é o Sr. Prof. Doutor Luís Graça.
-
Outro ,este rapaz precioso, que é meu filho...e
fez questão de aqui estar.
O
Sr. Professor Luís Graça é um sociólogo, docente em actividade, na Escola
Nacional de Saúde Pública em Lisboa, com um currículo notável de trabalhos, no
terreno.
Foi
sargento miliciano na guerra da Guiné. E foi por essa circunstância que, felizmente, entrou no mundo dos meus
amigos.
Desde
há cerca de 10 anos vem conduzindo e alimentando um blogue sobre a guerra da
Guiné, com uma riqueza incalculável. A história o dirá. Agremia nele a
colaboração de todos os ex-combatentes, ainda vivos, que ali vêm depositando o
relato vivo das suas experiências naquela experiência única e irrepetível. Por
onde passaram aas amarguras da maior parte das famílias portuguesas, de norte a
sul.
Testemunhos
palpitantes de emoção e colorido. Que pintam aquelas páginas vividas, e que se
não fosse esta feliz iniciativa, ficariam sepultadas no esquecimento absoluto.
Tem sido alfobre de informação de muito estudo, em teses de doutoramento.
Isto
é parte da sua obra.
Mas,
tão admirável é, senão mais, a craveira exemplar , insuperável, de sabedoria,
delicadeza, equilíbrio e atenção, com que Ele o orienta. E assiste,
diariamente.
Para
além dos seus notáveis contributos pessoais, em posts brilhantes que, ali,
ficarão para a história, Éle é um árbitro atento e rigoroso, nos diferendos
que, naturalmente, se vão levantando. Cada par de olhos tem sua própria
perspectiva, sobre os mesmos factos...e daí surgem inflamadas posições que ele,
sabiamente, arrefece.
Foi
aí que o conheci. E é daí que vem uma grande amizade e admiração que lhe
dedico. E a prova , dum lado e doutro, aqui está registada com esta presença
que muito me honra e alegra.
Do
outro, apenas, sublinho que é o meu filho primogénito. Além de ser um jovem e
promissor sacerdote jesuíta, É o primeiro selo, dos quatro que guardo, a confirmar o amor que nasceu dessa minha
passagem pela Guiné, onde fui acompanhado de perto, por sua Mãe, minha madrinha
de guerra...Infelizmente, não pôde estar aqui presente...
Do
Doutor Luís Graça, ....
Do
meu filho...
Confesso
sinceramente que nunca esperei chegar aqui...
O
destino tem dessas surpresas. Umas, de dor... outras gostosas. Como esta.
Quem
as não tem?
Todos
temos nossos talentos. O que é preciso é confiar e se entregar a eles , de alma
e coração. E, na devida hora, o fruto vem.
Não
resisto a revelar-lhes um pouco do que se passou comigo.
Nasci
há umas boas dezenas de anos, duma família modesta, muito honrada, numa aldeia
do Norte. Tão modesta como ela.
Foi
em Varziela, no concelho de Felgueiras. Uma terra verde, nas várzeas férteis de
Entre-Douro e Minho. Túrgidas de vinho
verde e milho loiro. Grassava a guerra
no centro da Europa.
Por
via dela, as condições de vida eram muito escassas.
Meu
pai era alfaiate. Minha Mãe, distribuidora do pão que, de canasta à cabeça, ia
buscar, inverno e verão, à padaria da Vila. Passava toda a manhã a palmilhar a
freguesia, com o pão à porta.
Depois,
além das tarefas próprias duma Mãe doméstica, acompanhava o meu Pai na oficina,
em labor constante, de sol a sol...muitas vezes, pela noite dentro.
Fiz
a primária como qualquer miúdo. Fui pé descalço, de sacola ao ombro. Para a
escola e para a catequese cristã.
No
meu mundo, de criança, só havia a escola e a igreja e o rol de festas, à sua
volta.
E
um deambular feliz, muito responsável, nas brincadeiras, livremente, por
aquelas matas, procurando ninhos, caçando pássaros. Com os colegas do meu
lugar. Com eles aprendi muito da vida. Que nunca mais se esquece....
Fui
um aluno aplicado e estudioso. Queria ser alguém..desde miúdo.
-
estuda muito e sempre, - me dizia meus Pais que, muito cedo, Deus os quis
levar.
Seduzido
pela figura ímpar do velho abade, a quem ajudava à missa, quis ser padre.
O
seminário, porém, custava caro e meus Pais não tinham dinheiro para mo pagar.
Não
foi por acaso. Surgiu um benfeitor que se propôs custeá-lo. Graças a ele,
Entrei
no seminário do Porto, em 1952. Subi, nele, a escada...para ver mais longe.
Aí,
recebi a sólida e rica formação escolar de que sempre vivi.
Quando
se avizinhava a hora de subir ao altar, no mundo da teologia, dei comigo numa
encruzilhada muito difícil de eu escolher.
Escolhi
deixá-lo.
Aos
vinte anos, vi-me sozinho, com a vida à frente. Sem ambos os Pais.
E
uma vontade tenaz de vir a ser alguém.
Naqueles
tempos, todos os estudos que tinha, só me valeram a parte de letras do quinto
ano de liceu.
Fui
prefeito num colégio para poder recuperar o que me faltava para entrar na
faculdade.
Eis
que a tropa se intrometeu pela frente. Irresistível. Com a guerra do ultramar à
espera.
Fiquei
miliciano em Mafra e, em Agosto 1964, embarquei para a Guiné. Foi uma
experiência dura, mas muito rica. Me serviu para a vida.
Uma
vez regressado, por sorte, com o corpo inteiro, fiz-me ao caminho e, já casado,
a trabalhar e com três filhos, consegui o curso de direito.
Dele
vivi, completamente absorvido, até à reforma, em 1999.
Aí,
senti-me de novo, como um recluso , julgo eu, que cumpriu pena e sai em
liberdade.
E
toda a agilidade que desenvolvi, ao longo de anos, por dever de ofício, na arte
de escrever peças jurídicas, onde imperava o rigor conciso e a densidade do
pensamento, se orientou, naturalmente, para a arte incipiente de escrever e
publicar.
No diário
de notícias, dei os primeiros passos, com notas breves sobre o que ia vendo.
Colaborei
em vários semanários regionais. Como participante certo e reconhecido.
Foi
então que ensaiei, com muito gosto, a minha auto-biografia parcial, para deixar
aos netos. Com os o título de “ Filhos de Pedra Maria”.
Escrevi
contos. Escrevi quadros vivos com retalhos do passado da minha aldeia.
A
desenvoltura natural com que escrevia, surpreendeu-me e fez-me pensar,
naturalmente, noutras paragens. Com que nunca sonhara.
Foi
então que eclodiu a bomba atómica do prémio Nobel do Saramago.
Para
mim, apenas um desconhecido ilustre, escritor e jornalista.
E
aqui, tenho de vos pedir toda a vossa compreensão ..não vai chegar...para a
minha imodéstia, mesmo atrevida. E perdoem-me a revelação deste segredo que só
agora, me atrevo a revelar...
Foi
só então que eu tomei conhecimento do seu percurso. Com muito espanto, vi que
aquele homem, de origem ainda mais humilde que a minha, como todos sabem,
apenas recebeu as luzes ténues dum curso oficinal nocturno, pasme-se...de
serralharia mecânica!...
Onde
a literatura e arte de escrever, não seriam, por certo, de realçar.
E
que foi sozinho e por seu pulso que ele aprendeu tudo o que sabia, se tornou um
sábio, nas salas de leitura duma biblioteca pública, ao Campo Pequeno.
Aí,
fui acometido por este pensamento, tão atrevido que me deixa envergonhado:
-
se aquele indivíduo chegou, apenas por si, onde chegou...eu que me fartei de
receber ensinamentos de toda a ordem, e os assimilei, com este avanço, não
ficarei para sempre, um tíbio estudante e um ingrato cobarde do que me
ensinaram...
Não
mais esqueço,. Foi como que um relâmpago, que estonteou e fez sonhar, como
nunca sonhara.
E a
partir daí, senti-me na obrigação de escrever.
Tinha
todo o tempo do mundo ao meu dispor. Sentia-me livre.
Tudo
me servia para escrever...como em vertigem.
Veio
um romance..e depois outro..e mais outro. Estão na gaveta...
Da
poesia pura, só me restava a profunda admiração que aprendi nas aulas mestras
de bons professores que Deus me deu. A quem agradeço. Muito reconhecido.
Uma
tarde, entre tantas, estava eu, à espera, ao volante do meu “Corsa” frente ao
Instituto onde trabalhava minha mulher,
que nunca tinha horas certas para sair...e lembrei-me de tentar escrever
um poema.
Sobre
quê?
Puxei
dum caderninho que me acompanhava sempre, olhei para o lado, e vi um comboio
amarelo, parado na estação de Algés.
E
foi sobre ele que, ali, saíram, dum só fôlego todos os versos do meu primeiro
poema.
A
que chamei:
- O
Comboio amarelo de Cascais...
Confesso
que fiquei estupefacto e comovido...
Posso
lê-lo?---
O COMBOIO DE CASCAIS
O comboio amarelo de Cascais não é como
os demais, não é:
Vai do Cais do Sodré,
De
braço dado,
Com o Tejo ao lado,
Até Cascais.
Reza a lenda
que o Tejo, perdido,
À procura do mar,
Mal chegou, cansado, ao Cais do Sodré,
se quedou, pasmado,
a admirar Lisboa, ali ao pé.
Não avançou. Alargou…
até Cacilhas, ao Seixal, Barreiro e ao
Montijo.
Foi beijar a Moita, distante…
Alagou, fez-se mar…
E, ufano, pôs-se a olhar Lisboa…
Olhou, olhou…
e esqueceu o mar!….
Viu o Castelo, verde, à proa;
Viu luzir Alfama
E fumegar a Madragoa.
Viu a Sé e a Estrela a rezar.
Viu Lisboa… tão bonita !…
Vieram gaivotas, caravelas e canoas.
Vestiu-se d’ondas verdes e brancas
E começou a cantar…
Fado e loas,
de
fazer chorar…
Lisboa.
Às terras secas de Espanha
jurou não querer voltar. Jamais.
O seu fado foi Lisboa:
o Castelo, Alfama, Estrela e Madragoa
e que mais…
E com ela quis casar,
Depois de ir ver o mar,
No comboio amarelo de Cascais…
Almada, 25 de Novembro de 1999
Joaquim Luís M. Mendes Gomes
( o meu primeiro poema foi este
mesmo.
Escrito, por impulso espontâneo, quando
esperava, frente ao IPIMAR, em Algés, pela minha mulher. Peguei num caderno.
Olhei para um comboio parado na
estação de Algés...
e pus-me a escrever.
Saíu exactamente assim.
No fim, desatei a chorar...
Dias depois, havia um programa cultural,
na antena dois. De Fernando Nobre, onde se lia sempre um poema ao encerrar.
Mandei-o para lá num fax...uma tentativa e prova de fogo. Um dia, recebi um
telefonema. Era Daniela Gomes a dizer-me que meu poema seria lido nessa manhã.
E assim foi. Gravei e, de vez em quando se me apetece chorar, me ponho a
ouvi-lo na voz daquele senhor que além do mais, sabia dizer muito bem
poesia...)
Senti-me confortado. E passei a
escrever...escrever...tudo servia para um poema. Voltei a mandá-los para o
mesmo programa e, alguns, foram lidos.
Nunca mais parei. E deu no que deu.
Além dos poemas deste livro que agora sai a lume,
tenho centenas deles, se calhar bem, para virem a ter a mesma sorte...
Desculpem-me. Já vai longe demais.
Apenas mais duas palavras para dizer que As baladas de
Berlim, foram escritas numa das minhas estadias em Berlim, por grato dever de
ofício, ao pé dos meus filhos que lá habitam e fazem a sua vida.
Muito obrigado.
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